Após 3 anos, começa investigação pública sobre morte de Jean Charles

Emilia Pérez. Londres, 22 set (EFE).- Mais de três anos depois de o brasileiro Jean Charles de Menezes ter sido morto a tiros por dois agentes britânicos que o confundiram com um terrorista suicida, começou hoje em Londres a investigação pública sobre sua morte com a qual sua família espera conhecer a verdade.

EFE |

"Esses serão meses longos e dolorosos, mas estaremos aqui até o final para conhecer a verdade", declarou à imprensa Patricia da Silva Armani, prima de Jean Charles, diante do estádio Oval de críquete, no sul de Londres, onde acontece a investigação.

Patricia foi ao estádio acompanhada de Alex e Alessandro Pereira, também primos de Jean Charles, além de amigos que distribuíram panfletos com a bandeira do Brasil e a mensagem: "Três anos e sem justiça".

Além disso, usavam camisas com a data do trágico incidente (22 de julho de 2005), na estação de metrô londrina de Stockwell, no sul da capital britânica.

"Investigação, não encobrimento", pedia um cartaz levado por simpatizantes da campanha em um edifício em frente ao estádio onde acontecerá a investigação durante as próximas 12 semanas, não muito longe do local da morte do brasileiro.

Espera-se que a mãe de Jean Charles, Maria Otone de Menezes, e seu irmão Giovani viajem ao Reino Unido para acompanhar os depoimentos dos oficiais que mataram o brasileiro.

Será a primeira vez que se ouvirá o testemunho desses agentes, identificados como "Charlie 2" e "Charlie 12" e que a família de Jean Charles poderá interrogá-los através de seu advogado, Michael Mansfield, o mesmo que representou Mohamed al-Fayed na investigação sobre a morte da princesa Diana.

A investigação tem como objetivo determinar "como aconteceu" a morte de Jean Charles, "que não estava envolvido nem com atentados, explosões nem forma alguma de terrorismo", afirmou hoje o ex-juiz do Tribunal Superior de Londres Michael Wright na abertura da investigação.

"Ninguém está sendo acusado aqui de crimes penais. (...) Aqui não há acusação nem defesa. Só se tenta buscar a verdade", disse o juiz.

Desde aquele trágico 22 de julho de 2005, quando o jovem morreu a tiros na estação de Stockwell, a família e os amigos do brasileiro não têm feito outra coisa a não ser tentar descobrir a verdade e pedir que se faça justiça.

A morte de Jean Charles aconteceu um dia depois dos atentados frustrados de 21 de julho de 2005 contra a rede de transporte de Londres, nos quais nenhuma pessoa ficou ferida e que pretendiam imitar os ataques terroristas de 7 de julho do mesmo ano em Londres, que deixaram 56 mortos e mais de 700 feridos.

Jean Charles, que tinha 27 anos e era eletricista, foi confundido com um dos autores dos ataques fracassados de 21 de julho que vivia no mesmo prédio que o brasileiro.

Ao sair de manhã para trabalhar, Jean Charles, alheio à perseguição montada em torno dele, foi seguido pelos agentes em seu trajeto de ônibus até a estação de Stockwell, e lá foi perseguido até o vagão onde foi baleado pelos agentes em meio ao pânico dos outros passageiros.

Aproximadamente 100 pessoas estão convocadas a depor na investigação, das quais 65 são policiais e 48 prestarão declaração sob anonimato, inclusive os agentes que apertaram o gatilho e que foram reintegrados ao serviço em operações antiterroristas após permanecerem um ano afastados.

Outra testemunha-chave será Cressida Dick, responsável direta pela operação e absolvida em novembro de toda a responsabilidade por um júri.

O resultado da investigação pode ser determinante para o futuro do comissário-chefe da Scotland Yard, Ian Blair, que sempre reiterou que soube um dia depois do incidente que a pessoa morta era inocente.

A investigação, similar à desenvolvida sobre a morte de Diana, é um procedimento previsto na lei britânica para determinar as causas de uma morte em circunstâncias violentas ou não esclarecidas.

A Promotoria britânica se recusou a processar os agentes que participaram da operação, que também não foram alvo de medidas disciplinares.

No ano passado, a Polícia Metropolitana de Londres foi declarada culpada de violar a Lei de Saúde e Segurança no Trabalho de 1974, que obriga as forças da ordem a cumprirem as normas também a respeito dos que não são seus funcionários. EFE ep/wr/rr

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