Apoio russo a independência irrita, mas não choca georgianos

Por Mark Trevelyan TBILISI (Reuters) - Cidadãos georgianos ouvidos na terça-feira reagiram com irritação, mas sem surpresa, à notícia de que a Rússia reconheceu a independência das províncias separatistas da Abkházia e Ossétia do Sul. Muitos não admitem a perda definitiva desses territórios da Geórgia.

Reuters |

'Eu lhe dou cem por cento de garantia de que vamos voltar', afirmou Yermile Kheladze, um georgiano oriundo da Abkházia, uma das províncias separatistas. Como outros, porém, ele não sabe explicar exatamente como a Geórgia vai reverter o fato de que Abkházia e Ossétia do Sul se tornaram na prática protetorados russos depois da curta guerra deste mês.

'As Nações Unidas, a Otan, a América (Estados Unidos) precisam discutir isso. Não há necessidade de guerra', disse esse professor de 53 anos, que fugiu da Abkházia durante o conflito separatista de 16 anos atrás, quando sua casa foi saqueada e queimada devido à sua origem étnica.

Na terça-feira, ele participou de um protesto pacífico com cerca de 200 pessoas em frente à embaixada russa em Tbilisi.

'Hoje somos nós, quem serão os próximos?', refletia Nika Akuardia, 21 anos. 'As pessoas na Europa precisam saber que isso ameaça não só a democracia georgiana. É uma ameaça ao mundo todo', acrescentava a também Abkhaz Gocha Ochigava, 28 anos.

Por trás das grades da embaixada, era possível ver poucas luzes acesas. Cantando e gritando, os manifestantes agitavam cartazes com os dizeres 'Pare, Rússia', 'Não ao fascismo russo', 'Russos, ocupantes da Geórgia'.

Na calçada em frente à embaixada, eles deixaram todo tipo de lixo e entulho -- pneus velhos, uma cadeira quebrada, um fogão, uma geladeira e até duas latrinas rachadas -- numa resposta irônica ao suposto saque de quartéis georgianos por forças russas.

Numa grade branca do outro lado da rua, a palavra 'anticristo' e outros xingamentos em inglês e russo foram escritos sobre retratos do primeiro-ministro da Rússia, Vladimir Putin.

Em outros pontos da capital, as ruas estavam tranqüilas e ninguém parecia ter apetite por política. 'Esse assunto absolutamente não me interessa', disse uma jovem morena sentada num banco da avenida Rustaveli, a principal da cidade.

É a perda da Abkházia -- região litorânea que evoca muitas lembranças felizes de verão para os georgianos -- que parece doer mais. 'Era nossa pérola, e os russos nos tiraram à força', disse um economista aposentado, que não quis dar o nome.

Tako Svanidze, dançarina do famoso teatro folclórico Nabadi, disse que a crise afetou diretamente suas atividades.

'Não sabemos o que fazer. Já estamos tendo problemas no trabalho. Quando esta guerra começou, as pessoas pararam de vir. Ninguém tem tempo para canto e dança. Não temos platéia.

As pessoas não estão no clima.'

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