Apesar de trégua, situação continua tensa na Bolívia

Apesar do anúncio de uma trégua no cerco promovido por apoiadores de Morales ao Departamento de Santa Cruz, bastião da oposição, os protestos continuam na Bolívia enquanto se aguarda a retomada do diálogo entre governo e opositores nesta quinta-feira.

BBC Brasil |

O presidente da Conalcam (Coordenadora Nacional para a Mudança, na sigla em espanhol), Fidel Surco, anunciou a "trégua" na "caminhada" para a capital de Santa Cruz, Santa Cruz de la Sierra, mas ressalvou: "Recebemos sugestão do presidente de suspender a caminhada até esta quinta-feira, mas não estamos nos desmobilizando. É um intervalo. Queremos que os governadores assinem o documento nesta quinta", disse à rádio Red Erbol.

Nesta terça-feira, líderes do grupo "Ponchos Rojos" ("Ponchos Vermelhos") disseram que estavam embarcando em "mais de dez ônibus" em La Paz em direção à Santa Cruz.

"Estamos prontos para chegar lá e dar nossa solidariedade aos companheiros que cercam Santa Cruz", afirmou um deles à rádio Red Erbol. Os "Ponchos Rojos" são uma organização indígena que defende as propostas de Morales e costuma ser temida por outros grupos, opositores ou não ao líder boliviano.

No Departamento (Estado) de Potosí, estudantes realizaram manifestação pedindo "justiça" pelas mortes em Pando.

No Departamento de Beni, manifestantes ameaçaram, segundo as rádios bolivianas, ocupar a prefeitura (palácio estadual) diante da possibilidade de que o governo local determine o fim do bloqueio das estradas nesta região.

"Se tentarem tocar nos bloqueios, ocuparemos imediatamente o prédio do governo", disse o secretário-executivo da Federação dos Colonos de Beni, Adrían Lobera. Ali, os bloqueios também são em apoio ao governo Morales.

Apesar da trégua anunciada em Santa Cruz, a situação continua muito tensa em várias partes do país.

"Quando passaram aqui, eles jogaram uma dinamite contra a igreja, onde um grupo de crianças de oito a 12 anos ensaiava na orquestra mirim, e outra contra a casa do comitê cívico feminino de Ichilo e ainda contra uma rádio local. Por sorte, ninguém saiu ferido", disse à BBCBrasil, por telefone, o vice-prefeito de Ichilo, Mamerto Quiroga, opositor de Morales.

A rádio seria afiliada à Red Erbol, como informou a rádio e agência em sua página na internet.

O município de Ichilo fica a cerca de 80 quilômetros do centro de Santa Cruz de la Sierra.

"Eles já passaram daqui e agora estão na cidade de Portachuelo, a cerca de 70 quilômetros da capital do Estado". Na noite de segunda, duas pessoas saíram feridas quando promotores de justiça tentaram liberar o trânsito em Ichilo.

Transferência de governador

Ainda nesta terça, centenas de pessoas da terceira idade cercaram a prisão de São Pedro, em La Paz, para protestar contra a possibilidade de transferência do prefeito (governador) - ainda não se sabe se suspenso ou cassado - de Pando, Leopoldo Fernández.

Fernández é responsabilizado pelo governo Morales pelas mortes que ocorreram há quinze dias em Pando, na fronteira com o Acre, e por ter "desobedecido" o estado de sítio ali decretado.

No fim do dia, a Suprema Corte de Justiça decidiu não transferi-lo a Sucre - onde, especulava-se que poderia ser libertado.

Antes desta decisão, o vice-ministro de Coordenação dos Movimentos Sociais, Sacha Llorenti, disse que o "caso prova que a justiça favorece os poderosos".

Em Sucre, movimentos sociais já analisavam a realização de protestos contra a possível presença de Fernández.

Ele fez parte do grupo dos cinco governadores de oposição ao governo Morales, num país que tem nove administrações estaduais.

Críticas a Washington

As manifestações são registradas enquanto se espera o reinício do diálogo entre governo e oposição nesta quinta, em Cochabamba, no centro do país.

O diálogo foi suspenso porque Morales está em Nova York, para participar da Assembléia Geral das Nações Unidas.

Ao discursar na ONU, nesta terça, ele reiterou suas críticas ao governo americano.

"Escutei a condenação que o presidente dos Estados Unidos fez ao terrorismo. Na Bolívia, grupos de direita incendeiam gasodutos para evitar a exportação de gás, mas o governo americano não condena estes atos de terrorismo".

Antes de viajar, Morales assinou o documento com a proposta do governo aos opositores, como informou a Agência Boliviana de Informação (oficial).

O governo propõe que o Congresso defina até 15 de outubro a data do referendo que deve ratificar ou rejeitar a nova Constituição, aprovada sem a presença da oposição.

O porta-voz da oposição, o governador de Tarija, Mario Cossío, disse que não vai assinar o documento sem discutir a Carta Magna. O texto inclui temas como a reforma agrária e os recursos naturais.

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