Apesar de proibido por lei, casta segue recolhendo excrementos humanos

Julia R. Arévalo.

EFE |

Nova Délhi, 1 abri (EFE).- Recolher os excrementos das outras pessoas com as próprias mãos foi a profissão e o destino de centenas de milhares de indianos, em sua maioria mulheres, nascidos para uma prática centenária que devia ser erradicada oficialmente nesta quarta-feira.

Proibida por lei desde 1993, no começo de 2007 o Governo calculou que restavam 342 mil "manual scavengers" (eram mais de um milhão, segundo as ONGs) e aprovou um programa de reabilitação que previa erradicar esta prática até o fim de março de 2009, mas ao acabar o ano passado ainda haviam 117 mil pessoas dedicadas a ela.

Os esforços para acabar com esta vergonha social chocaram tanto pela obstrução das autoridades regionais - muitos estados negaram ter o problema até que a Corte Suprema os censurou em 2003 - como pela noção hindu de "impureza" que desaconselha ter banheiros dentro de casa, arraigada sobretudo na Índia rural.

Em março do ano passado o Governo se viu obrigado a prorrogar oficialmente por mais um ano mais o cumprimento do programa de reabilitação, que prevê formação e créditos para que as pessoas que vivem disso possam se dedicar a outras profissões.

"Em geral, todos os estados estão livres dos manual scavengers", disse hoje à Agência Efe um responsável pelo programa de reabilitação, embora tenha admitido que as estatísticas ainda não foram entregues.

"Restaram ao menos 40 mil recolhedores de excrementos manuais por toda a Índia", afirma um porta-voz de Sulabh International, uma ONG que participou ativamente da reabilitação social destes e outros "intocáveis" ou "dalits" da Índia e que ainda tem projetos em andamento em três estados.

Os recolhedores de excrementos são os mais intocáveis entre os intocáveis, pela repugnância que a sua profissão gera: ninguém lhes dá nem entrega nada em mãos, nem sequer quando vão comprar alguma coisa nas lojas, e eles vivem nos arredores dos povoados.

Em sua maioria, os recolhedores de excrementos são mulheres que, desde pequenas, se dedicam a retirar os sedimentos alheios. Elas os recolhem com uma pequena tigela e os carregam em baldes sobre a cabeça.

"Todos os dias, elas tiveram que enfrentar todo tipo de insultos e humilhações por fazer uma bom trabalho para a sociedade", lamentou o diretor da Sulabh, Bindeshwar Pathak.

Pertencente à casta dos bramanes, a mais alta da hierarquia hindu, Pathak ainda não esqueceu um momento traumático de sua infância, quando sua avó o obrigou a comer excrementos de vaca, terra e água do Ganges para "se purificar" após haver ousado tocar um "dalit".

"Com um crescimento do PIB semelhante, com sua vasta tecnologia e sua gente dizendo que a Índia liderará o mundo inteiro... mas este sistema ainda existe", lamentou Pathak em entrevista à Efe.

Reconhecido internacionalmente, ele fez sua a causa dos manual scavengers e criou programas de formação em ofícios como alfaiataria, barbearia, produção de alimentos ou informática para salvá-los das garras de seu destino.

Ao mesmo tempo, Sulabh desenhou e expandido pela Índia - e fora dela - um latrina original que não depende da águas e esgoto e transforma a matéria fecal em adubo ou energia.

Mas a tarefa é difícil em um país no qual 700 de seus 1,1 bilhão de habitantes ainda fazem suas necessidades ao ar livre ou em "latrinas secas" mais ou menos afastadas do lar, apesar do Governo ter fixado 2012 como o ano para acabar com a defecação ao ar livre.

No dia 11, o Executivo admitiu que ainda faltava construir 59 milhões de "banheiros higiênicos" domésticos e quase meio milhão de públicos para cumprir com seu objetivo, diretamente relacionado a erradicação da profissão de manual scavengers.

Também reconheceu que quatro estados seguem tendo "latrinas secas", cuja construção foi proibida pela mesma lei que ilegalizou a recolhida manual de sedimentos humanos.

O infatigável Pathak conheceu tanto a crueldade de uma multidão que deixou um "scavenger" morrer atacado por um touro ao lhe negar auxílio, como a esperança das cerca de 30 mulheres reabilitadas que, em julho de 2008, desfilaram modelos que elas mesmas tinham bordado na abertura de um evento organizado pela Organização das Nações Unidas em Nova York.

Graças ao treinamento recebido, em alguns lugares da Índia os produtos alimentícios elaborados por antigas recolhedoras de excrementos "são comprados pelas mesmas pessoas que antes limpavam as latrinas", alegra-se Pathak.

É uma revolução silenciosa e muito lenta, porque em outros lugares as crianças "dalits" são obrigadas a limpar os banheiros do colégio em que estudam, entre outras humilhações constantemente noticiadas pela imprensa do país. EFE ja-ss/pb

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