Por Cris Chinaka HARARE (Reuters) - O presidente do Zimbábue, Robert Mugabe, rejeitou na quinta-feira os apelos vindos da África para que adie o segundo turno das eleições presidenciais marcado para sexta-feira, argumentando que ninguém poderia interferir em seu país, nem mesmo a União Africana (UA).

Mugabe, 84, que está prestes a estender seus 28 anos de governo já que figura como candidato único no pleito de sexta-feira, disse estar aberto a negociações com o partido oposicionista Movimento para a Mudança Democrática (MDC).

O líder dessa legenda, Morgan Tsvangirai, retirou-se da eleição depois de uma onda de ataques mortais contra seus simpatizantes.

Em um comício de campanha realizado em Chitungwiza, ao sul de Harare, Mugabe afirmou: 'Alguns dos nossos irmãos na África fazem apelos (em nome do adiamento da votação), pressionando-nos para que infrinjamos nossas leis. Nós temos de nos recusar a fazer isso, de forma que vamos obedecer à lei'.

Mugabe disse que participaria da cúpula da UA no Egito, na próxima semana, mas ressaltou que nenhuma solução poderia ser imposta ao Zimbábue. Ele afirmou estar pronto para responder qualquer contestação do pleito que surja dentro da UA.

'Eu sei que algumas pessoas estão reunindo forças para atacar o Zimbábue. Eu quero ver algum país atrever-se a apontar o dedo para nós dentro da UA. As nossas eleições terão sido livres.'

Um comitê de segurança da Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral (SADC) pediu na quarta-feira o adiamento da votação, afirmando que a reeleição de Mugabe em uma disputa na qual figurasse como candidato único seria ilegítima por causa da onda de violência no país.

Desse comitê participa a Tanzânia, que atualmente preside a UA.

No domingo passado, Tsvangirai retirou-se do pleito por causa da violência que teria matado quase 90 dos simpatizantes do MDC. O candidato refugiou-se na Embaixada da Holanda, onde continua até agora.

Tsvangirai tinha dito antes que não poderia haver negociações com Mugabe se as eleições de sexta-feira fossem de fato realizadas. Segundo o oposicionista, caso se declare presidente, Mugabe seria rejeitado na qualidade de um líder ilegítimo que assassina seu próprio povo.

Os zimbabuanos serão obrigados a participar da eleição presidencial de sexta-feira por causa da presença nas ruas de soldados e de milícias leais ao presidente, afirmou Tsvangirai.

'Amanhã, o que vai acontecer é que as pessoas serão obrigadas a votar. E isso por causa da mobilização dos militares para acompanharem esse processo', disse o líder do MDC na quinta-feira, em uma entrevista concedida à rádio portuguesa Renascença.

'Líderes tradicionais estão sendo obrigados a conclamar os membros de suas comunidades a votarem', disse Tsvangirai. 'Eles estão sendo instados a votar amanhã. De forma que os atos de violência e as pressões contra o povo continuam a ocorrer.'

MANDELA

A figura mais consagrada da África, Nelson Mandela, somou sua voz ao coro surgido no continente e no restante da comunidade internacional para condenar a violência e o caos verificados no Zimbábue.

Em um comentário de cunho político, algo que Mandela não costuma mais fazer, o ex-presidente sul-africano disse em Londres, quando participava de um jantar organizado para celebrar os 90 anos dele, que ocorreu 'um trágico fracasso da liderança de nosso vizinho Zimbábue.'

Ban Ki-moon, secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), repetiu na quinta-feira que os atos de violência e de intimidação precisavam ter um fim e que a eleição deveria ser adiada.

O secretário-geral disse a repórteres, em Nova York, que havia conversado com vários líderes da África sobre a solução pacífica da crise.

'A situação parece estar avançando, mas eu ainda estou preocupado com a possibilidade de uma eleição ser realizada sob essas circunstâncias. Haverá muitas dúvidas e discussões a respeito da legitimidade dela,' afirmou.

(Reportagem adicional de MacDonald Dzirutwe e Nelson Banya em Harare, Louis Charbonneau nas Nações Unidas, Susan Cornwell em Kyoto)

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