Aos 20 anos, jovem assume chefia da segurança em cidade no México

Mãe de um bebê e estudante de criminologia, Marisol Valles deciciu aceitar o posto com esperança de mudar realidade violenta

iG São Paulo |

Marisol Valles tem 20 anos, um filho ainda bebê e 19 policiais sob seu comando, aos quais passa a chefiar a partir desta quarta-feira como comandante da polícia do povoado mexicano de Praxedis Guadalupe Guerrero, castigado pela violência e localizado em uma das passagens mais usadas pelos cartéis para levar drogas aos Estados Unidos.

Ninguém mais quis assumir o cargo de chefe de polícia em Praxedis Guadalupe Guerrero, de 10 mil habitantes e situado às margens do fronteiriço rio Bravo, cujo prefeito foi assassinado em junho. A estudante de criminologia decidiu enfrentar o desafio, embora reconheça que sinta medo.

Em entrevista, a mexicana de 20 anos afirmou que decidiu aceitar o posto por "gostar" de sua cidade e por querer "fazer algo para mudar a realidade". A nova secretária de Segurança Pública de Práxedis G. Guerrero afirmou não se sentir intimidada pelo desafio de um dos cargos mais perigosos do México, ao considerar que "não há postos para homens e nem para mulheres". "Isso é questão de perfil", disse.

Nomeada na tarde de segunda-feira, Marisol era a única candidata. Na quarta-feira, na praça do povoado, foram passados em revista os 19 policiais do povoado, dos quais nove são mulheres recentemente incorporadas.

"Arrisquei-me porque quero que o meu filho viva em uma comunidade diferente da que temos hoje, quero que as pessoas não vivam mais com medo de sair, como era antes", afirmou.

Traição

De aspecto frágil e com apenas 1,55 metro de altura, Valles também afirmou não ter medo de uma eventual traição. "Trair a confiança é algo que não posso controlar", disse ela, que lembrou ainda que há ações do governo federal contra candidatos a policiais que não sejam considerados confiáveis.

A jovem mexicana era secretária do comandante da polícia municipal antes do novo trabalho. Sobre os planos para sua gestão, ela declarou que a primeira tarefa será um projeto emergencial. "Vamos dividir o município em nove setores, em cada um deles haverá uma policial mulher e um policial homem", continuou, explicando que "a mulher irá atender os problemas das famílias e o homem atuará contra o ato criminoso".

O desafio da jovem comandante será enfrentar a pior onda de violência desta área que, desde dezembro de 2006, quando Felipe Calderón assumiu a presidência, é cenário de confrontos entre carteis de drogas que disputam o controle entre si ou que entram em combate com os efetivos da Polícia Federal e do Exército.

Em milhares de povoados mexicanos, os escassos, mal armados e mal pagos policiais municipais acabam colocando-se a serviço de traficantes de drogas, reconheceu o governo, que desde 2006 envolveu o Exército e a Marinha de guerra em uma ofensiva contra os sete cartéis que operam no país que já resultou em 28 mil mortes.

Uma reforma constitucional está tramitando para se conseguir que os 160 mil militares e 2.500 policiais municipais passem ao comando dos governos estatais. Os policiais municipais representam quase 40% dos 433 mil policiais que o México tem. Desse total, apenas 33 mil são policiais federais, os mais diretamente envolvidos na luta contra crimes contra o narcotráfico.

'Terra de ninguém'

Somente este ano, mais de 2.500 foram assassinados na região do vale de Juárez, onde se situa o povoado. A região é considerada uma das principais passagens utilizadas por traficantes e coiotes que levam drogas e imigrantes ilegais aos Estados Unidos.

A zona desértica do norte mexicano é considerada 'terra de ninguém', com inúmeros registros de homicídios, sequestros, extorsões e outros crimes. No sábado passado, por exemplo, um funcionário público foi assassinado com 60 disparos. Rito Grado era conhecido por fazer denúncias contra a atuação das organizações criminosas na região. Ele foi alvo de um grupo armado quando estava junto com o filho, que também morreu.

*Com Ansa e AFP

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