O primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, defendeu nesta terça-feira, ao lado presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que o G8 (grupo dos sete países mais industrializados do mundo mais a Rússia) deve se tornar G14 para acomodar Brasil, Índia, China, México, África do Sul e Egito. Tenho uma responsabilidade como o próximo presidente do G8, e na reunião do G8 do Japão propus que essa formação fosse superada para ter economias emergentes.

Propus também (a inclusão do) Egito, porque sua relevância sobre os países da África é muito grande", disse Berlusconi em uma coletiva de imprensa conjunta com Lula, que realiza uma visita de Estado de quatro dias pelo país europeu.

O premiê italiano disse que esta será uma das propostas defendidas por parte dos europeus durante o encontro dos chefes de Estado do G20, no próximo sábado, em Washington.

Berlusconi disse esperar que de Washington saiam propostas de novas regras para que, no futuro, o mundo não tenha que viver novamente uma crise como a atual.

"Em Washington, cada um apresentará sua proposta e nos próximos cem dias vamos buscar novas regulamentações", disse.

Antes da coletiva, membros dos governos italiano e brasileiro assinaram acordos na área da defesa, saúde pública, economia (com medidas para pequenas e médias empresas) e tecnologia espacial.

O premiê disse que os acordos são importantes, mas que é preciso fazer mais para estreitar as relações comerciais entre Itália e Brasil.

"Brasil e Itália são dois países amigos que podem crescer suas relações porque têm governos que desejam isso. O Brasil é a décima potência mundial, com 40% do que se produz na América do Sul".

Visita ao Brasil
Berlusconi disse que, a convite do presidente Lula, deverá visitar o Brasil em fevereiro, quando pretende preparar, junto com Lula, "temas que serão discutidos na reunião do G8 ou do G14 no ano que vem".

O presidente Lula abriu seu discurso ressaltando os laços históricos que ligam Brasil e Itália pela imigração, enfatizando que 30 milhões de brasileiros, entre eles a primeira-dama Marisa Letícia, são descendentes de italianos.

Mas logo voltou a falar da crise e disse que uma das armas que Brasil e Itália devem usar para se proteger é aumentar o intercâmbio comercial entre os dois países.

"As transações comerciais somaram US$ 8 bilhões até outubro, o que é pouco. Podemos fazer mais. Temos que trabalhar para chegar a US$ 10, 12, 15 bilhões, porque quanto mais diversificada for a nossa relação comercial, menos sofreremos por conta da crise econômica".

Lula disse que é "quase impossível" chegar a um acordo para solucionar a crise financeira na reunião do G20, no sábado.

"O G20 não pode definir soluções para o problema da crise. Seria quase impossível ter um acordo no sábado com tantas divergências", disse Lula.

Mas, segundo o presidente, os países-membros do bloco compartilham a opinião de que o sistema financeiro tem que ganhar dinheiro investindo em setor produtivo e não na especulação.

"Não é possível que o sistema cause a crise e que o Estado tenha que colocar dinheiro para salvar".

O presidente voltou a alertar contra a "crise do pânico", que começa quando o medo toma conta dos consumidores, que param de comprar e paralisam a economia real.

Obama e Mandela
Os dois líderes também falaram do presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama.

Lula comparou o democrata com o ex-líder sul-africano Nelson Mandela, dizendo que o futuro presidente representa para os americanos o mesmo que Mandela para os sul-africanos.

"Obama tem uma oportunidade extraordinária nas mãos de mudar a história dos Estados Unidos, como Mandela mudou a da África do Sul.

Durante um encontro com sindicalistas, pela manhã, Lula já havia dito que a eleição de Obama representa muito, porque "não é pouca coisa os Estados Unidos elegerem um negro como presidente da República".

Mas, na avaliação do presidente, o futuro governo terá de agir rápido porque do contrário, "um ano depois, (a crise) vai ficar na responsabilidade dele".

Berlusconi disse que, se pudesse aconselhar Obama, daria a ele um conselho relacionado à "escalada de relações negativas" entre Rússia e Estados Unidos, que é, segundo ele, um problema mais grave do que a guerra no Iraque.

"Fui a Moscou com essa tarefa e nos meus contatos com o Partido Democrata dos EUA, enfoquei a necessidade de solucionar essa controvérsia para evitar essa escalada e evitar posições que possam colocar mísseis de um lado e de outro. Mísseis esses que nos deixaram durante tantos anos numa grande angústia, como durante a Guerra Fria", disse o premiê.

Surpresa para Lula
O primeiro-ministro fez uma surpresa a Lula e convidou os jogadores brasileiros que atuam no Milan, clube de propriedade de Berlusconi, para almoçar com o presidente.

Lula se surpreendeu quando viu a chegada de Alexandre Pato, Kaká, Emerson, Ronaldinho Gaúcho, Dida e Leonardo, ex-jogador e atual dirigente do Milan, na recepção preparada por Berlusconi na Villa Madama, uma das sedes do Ministério das Relações Exteriores da Itália.

Em conversa com os jornalistas após a coletiva de imprensa, Leonardo disse que Lula e os jogadores conversaram muito sobre futebol.

Durante a entrevista, Lula já havia citado o encontro com os jogadores e disse ter ficado muito orgulhoso em saber que todos eles tinham ações da Petrobras.

"Fiquei sabendo que são grandes investidores, por isso agradeço", brincou Lula.

Agenda
O presidente teve uma agenda apertada nesta terça-feira. No início da manhã, ele depositou flores no Altar da Pátria, em homenagem ao soldado desconhecido. De lá, seguiu para um encontro com mais de mil sindicalistas italianos, em que discursou ao lado do ex-primeiro-ministro italiano, Massimo D'Alema.

À tarde, o presidente se reuniu com Berlusconi e depois participou do encerramento do seminário sobre oportunidades de investimentos oferecidas pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

À noite, ele oferece um jantar na embaixada brasileira em retribuição ao presidente italiano Giorgio Napolitano.

Amanhã, Lula se reúne com o prefeito de Roma, Gianni Alemanno, do partido Aliança Nacional, de inspiração neofascista.

Alemanno foi eleito em abril e é o primeiro presidente da direita a ocupar a prefeitura de Roma.

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