Anúncio de Raúl Castro é a mudança de governo mais profunda em 50 anos

O presidente de Cuba, Raúl Castro, acaba de anunciar a mais profunda mudança no governo do país dos últimos 50 anos, removendo peças-chave da administração de seu predecessor, seu irmão Fidel Castro, como o vice-presidente Carlos Lage e o chanceler, Felipe Pérez Roque. O anúncio oficial, feito nesta segunda-feira, tenta diminuir a importância dessas substituições, ao colocá-las em meio a uma reorganização do aparato estatal, de modo a reduzi-lo e simplificá-lo, algo que já havia sido anunciado pelo presidente cubano.

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Mesmo assim, a dimensão das mudanças que acontecem no país é difícil de esconder quando se anuncia a substituição de 11 ministros, a fusão de quatro ministérios e se atinge, inclusive, o vice-presidente do Conselho de Ministros.

A mudança anunciada por Raúl atinge fundamentalmente políticos muito ligados ao ex-presidente Fidel Castro, como é o caso de Lage, Pérez Roque e Otto Rivero, ministro responsável pela chamada "Batalha de Ideias", um plano de desenvolvimento social que era administrado diretamente por Fidel.

Antes do anúncio do afastamento destes ministros, outros políticos mais jovens também deixaram a cena política, como Carlos Lage (filho), que era dirigente dos estudantes universitários, Hassan Pérez, da Juventude Comunista, e Carlos Valenciaga, chefe do Grupo de Apoio a Fidel.

Carlos Lage e Felipe Pérez Roque trabalharam no círculo mais íntimo de Fidel, conhecido como o Grupo de Apoio (Grupo de Coordinación y Apoyo del Comandante en Jefe), o que, posteriormente, fez com que fossem colocados em pontos-chave do governo, respectivamente, o Conselho de Ministros e o Ministério das Relações Exteriores.

Lage foi o artífice das reformas econômicas dos anos 1990 - que trouxeram a legalização do dólar, do trabalho por conta própria e dos investimentos estrangeiros -, graças às quais o país conseguiu sobreviver ao fim do bloco comunista soviético.

Entretanto, foi também durante a liderança econômica de Lage que se colocou em prática a dualidade monetária, medida que fez com que os salários caíssem e, com eles, o poder aquisitivo da maior parte da população trabalhadora.

AP
Felipe Pérez Roque e Raúl Castro, em foto de 2007

Felipe Pérez Roque e Raúl Castro, em foto de 2007

Já Felipe Pérez Roque foi o chefe do Grupo de Apoio a Fidel até que, depois da destituição de Roberto Robaina (em 1999), foi indicado pelo presidente para assumir o Ministério das Relações Exteriores, como um homem de sua inteira confiança.

Quando Pérez Roque foi nomeado chanceler, muitos consideraram que ele foi escolhido por ser um dos políticos mais fiéis a Fidel Castro, mas duvidavam de sua capacidade. Mesmo assim, Pérez Roque conseguiu desenvolver um trabalho bastante efetivo na pasta.

Curiosamente, sua destituição acontece no mesmo momento em que Cuba consegue os maiores êxitos diplomáticos dos últimos 50 anos, como o apoio de governos da América Latina, Rússia, China e a eliminação das sanções da União Europeia.

O movimento anunciado nesta segunda-feira é radical e profundo, mas não deveria ser surpreendente, já que, quando Raúl Castro foi eleito presidente do Conselho de Estado, em fevereiro do ano passado, anunciou que realizaria uma mudança no governo que, a princípio, estava prevista para dezembro de 2008.

Raúl vinha governando com a equipe herdada de seu irmão desde que, em agosto de 2006, assumiu o mandato de forma interina para que Fidel se tratasse de uma doença nos intestinos.

As substituições anunciadas por Raúl marcam a independência do novo presidente, sobretudo quando se leva em conta que muitos dos funcionários removidos haviam sido ratificados nos cargos por Fidel em seu testamento político.

Os planos de governo anunciados por Raúl quando assumiu estão sofrendo grandes atrasos, com a reforma agrária e a eliminação dos tetos salariais, por exemplo, sendo dificultadas pela burocracia estatal, apesar de serem medidas imprescindíveis para a economia.

Com esta reestruturação, o presidente parece querer solucionar vários problemas de uma vez, simplificando o aparato estatal, colocando em postos-chave homens de sua confiança e deixando claro a todos os funcionários que não há ninguém intocável.

Além disso, é preciso levar em conta que, em Cuba, a perda de um cargo no governo implica em uma queda na hierarquia do Partido Comunista, o que fará com que muitos políticos destituídos tenham um peso menor no Congresso do PC, marcado para este ano.

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