Partidos políticos espanhóis exigem que o único passo do grupo deve ser em direção a dissolução e o abandono definitivo das armas

A organização terrorista ETA anunciou hoje um novo cessar-fogo que foi recebido com ceticismo pelo Governo e os partidos políticos espanhóis que exigem que o único passo do grupo deve ser em direção a dissolução e o abandono definitivo das armas.

O anúncio da ETA foi feito por meio de um vídeo no qual aparecem três homens encapuzados. A gravação foi entregue e divulgada pela rede britânica "BBC".

AFP
Em vídeo, militantes do grupo basco ETA anunciam cessar-fogo na Espanha
Entre os trechos, os porta-vozes afirmam que a decisão de não realizar novas "ações armadas ofensivas" foi tomada "há vários meses", embora não especifiquem se a medida é permanente ou temporária.

No comunicado, remitido mais tarde ao jornal independentista basco "Gara", a organização sustenta que está disposta "a aceitar as mínimas condições democráticas para iniciar um processo democrático, se o Governo espanhol assim quiser".

Dois dias atrás, a esquerda independentista basca pediu a ETA o fim permanente da violência. O Executivo socialista presidido por José Luis Rodríguez Zapatero não se pronunciou diretamente sobre o anúncio. O Governo basco, no entanto, liderado também por um socialista, considerou o anúncio "insuficiente, ambíguo e fraudulento".

O conselheiro de Interior do Governo do País Basco, Rodolfo Ares, pediu aos partidos, sindicatos e instituições que "não se deixem enredar pelo anúncio" e que mantenham "a unidade para dizer a ETA que esta não conseguirá nenhum de seus objetivos", após ressaltar que "os tempos de trégua já passaram".

O novo cessar-fogo ocorre após mais de um ano sem atentados fatais e com a organização terrorista debilitada e acossada por ações policiais, judiciais e políticas, não só na Espanha, mas também na França e em Portugal, onde o grupo pretendia reeditar seu antigo "santuário" francês.

Em uma clara tentativa de internacionalizar qualquer solução, a organização faz um chamado no comunicado divulgado hoje "à comunidade internacional para que participe da construção de uma solução duradoura, justa e democrática a uma secular luta política", mas não falam em nenhum momento de verificação.

Reafirma sua vontade de articular "o projeto independentista" e assinala que o "Estado espanhol é consciente de que o País Basco está em uma encruzilhada" e "pode optar pela via da independência".

Com o de hoje, a ETA anunciou em 11 ocasiões diferentes a cessação de suas ações violentas desde 1981, a última em março de 2006 e que finalizou em dezembro do mesmo ano com o atentado no terminal 4 do aeroporto de Madri-Barajas, no qual morreram dois equatorianos.

Desde então, a organização terrorista ficou sem comando seis vezes. O episódio mais recente foi em 20 de maio, com a queda do 'número um', Mikel Carrera, conhecido como "Ata", e de seu substituto direto, seu braço direito Arkaitz Aguirregabiria.

Sem pausa, a organização sofreu golpes incessantes em toda sua estrutura, com mais de 400 detenções desde 2007, 68 só neste ano, fragilizando sua capacidade de executar atentados.

Os partidos políticos espanhóis receberam com prudência e desconfiança o anúncio de um novo cessar-fogo, diante de experiências anteriores, e sublinharam que o que a organização deve fazer é abandonar definitivamente as armas.

O governante Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE, partido governista), declarou, por meio da secretária da organização, Leire Pajín, que a sociedade espanhola precisa é da dissolução da organização terrorista.

Já o opositor Partido Popular (PP, conservador), por meio de seu vice-secretário-geral Javier Arenas, expressou desconfiança e alertou contra os pronunciamentos: "No PP já temos experiências de cessar-fogo e tréguas e todas terminaram sempre da mesma forma: muito mal para toda a sociedade espanhola".

O Partido Nacionalista Basco (PNV) lamentou que o conteúdo do comunicado "não é o que a ETA deve à sociedade basca nem o que esta esperava".

Personalidades da Esquerda Unida (IU) asseguraram que a "ETA está com vida curta", porque "o que se espera dela não é uma trégua", mas "o fim definitivo da atuação armada".

A "BBC" dominou hoje os noticiários com a informação do comunicado da ETA e imagens do vídeo no qual aparecem os três membros da organização encapuzados diante do emblema, uma serpente que envolve um machado e as palavras Bietan Jarrai.

Fundada em 31 de julho de 1959, a organização terrorista ETA, cuja sigla significa "Euskadi ta Askatasuna" (Pátria Basca e Liberdade) nasceu com o objetivo de buscar a independência do País Basco e durante sua história cometeu mais de 800 assassinatos.


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