O presidente mundial da Fiat, Sergio Marchionne, disse nesta quarta-feira em Roma que o Brasil não está sofrendo uma crise e que é preciso ser cauteloso para não confundir o país com o resto do mundo. A declaração foi feita minutos antes de Marchionne se encontrar com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que realiza uma visita de Estado à Itália até esta quinta-feira.

"O Brasil não está tendo uma crise. Temos que ser cautelosos para não confundir o Brasil com o resto do mundo. O resto do mundo está num estado bem diferente", disse o presidente da Fiat.

Marchionne reconheceu que a crise mundial "certamente terá repercussões" na economia brasileira, mas, segundo ele, a estrutura da crise no Brasil é fundamentalmente diferente da de outros países, especialmente dos Estados Unidos.

Queda nas vendas
Segundo dados do setor automotivo, em outubro as vendas de veículos no Brasil registraram queda de 11,6% em relação a setembro e 4% na comparação com o mesmo período do ano passado.

Para Marchionne, a queda é atribuída à contração do crédito.

"Mas isso também não é uma reação à contração do crédito em outros lugares. A contração do crédito nos Estados Unidos e em outros lugares está ocorrendo porque o sistema em si não tem liquidez necessária para sustentá-lo", avaliou.

Já no Brasil, segundo ele, os motivos são outros, e entre eles estariam as variações nas taxas de câmbio. Para o presidente da Fiat, isso estaria alterando as condições normais de comércio.

"Temos que esperar até este processo acabar. Eu não acho que vai durar muito. O presidente Lula reconhece a questão e acho que vai fazer tudo para eliminar o problema. É um problema temporário. Não é de natureza global, como em outros países", disse.

Ele acha que as condições normais de crédito poderão voltar dentro de 90 dias no Brasil.

"Eu duvido muito que vamos ver o mesmo tipo de recuperação em outros países".

Marchionne disse que a Fiat costuma rever seus investimentos com freqüência, mas decidiu não adiar nada e manter todos os seus compromissos no Brasil, "o que é um bom sinal".

Marchionne fez parte de um grupo de empresários que se reuniu na tarde desta quarta-feira com Lula, na embaixada brasileira.

Depois dos executivos da Fiat, Lula se reuniu com empresários da Enel, do setor de energia elétrica, da Legacoop, uma cooperativa para o desenvolvimento e promoção social, e da Telecom Itália.

Pela manhã, o presidente teve um encontro com o prefeito de Roma, Gianni Alemanno. Em seguida, compareceu à cerimônia de despedida oferecida pelo presidente italiano Giorgio Napolitano, no Palácio Quirinale.

Antes de falar com os empresários, Lula concedeu uma entrevista coletiva a jornalistas italianos.

Pacotes
A ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, também participou das reuniões com os empresários italianos.

Em conversa com os jornalistas, ela disse que há "um extremo interesse em investir no Brasil"
"Todos eles têm a convicção de que o Brasil é uma oportunidade, não só hoje, mas apresenta-se como uma oportunidade para o futuro".

Dilma disse ainda que "todos os Estados" poderão lançar pacotes semelhantes aos anunciados pelos Estados de São Paulo e Minas Gerais para combater os efeitos da crise.

Na terça-feira, o governo de São Paulo lançou uma linha de crédito de R$ 4 bilhões para os bancos e financeiras ligadas às montadoras de veículos em todo o país, que sofrem com a escassez de crédito.

No mesmo dia, o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, anunciou um conjunto de medidas de alívio tributário e de aumento do crédito para o setor produtivo para ajudar as pequenas e médias empresas.

Acordo com o Vaticano
Nesta quinta-feira, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, assina um acordo com o Monsenhor Dominique Mamberti, na Santa Sá, que regulamenta as atividades e o estatuto da Igreja Católica no Brasil.

A embaixadora brasileira junto ao Vaticano, Vera Machado, explicou que, na prática, nada vai mudar no que se refere às atividades da Igreja no país.

"O acordo reafirma o caráter laico e de liberdade religiosa que existe no Brasil", disse.

O documento, de 17 artigos, havia sido apresentado pela Santa Sé em outubro de 2006 e desde então passou por ajustes. Entre as emendas, está a que assegura o ensino facultativo nas escolas públicas não apenas da religião católica, como também de outras crenças.

Segundo Vera Machado, o ensino facultativo de religião já está previsto na Constituição e nas Leis de Diretrizes e Bases do Ministério da Educação, portanto, não altera o que já está em vigor.

Pelo acordo, o governo brasileiro e o Vaticano ainda reafirmam a imunidade tributária para pessoas jurídicas eclesiásticas, como igrejas e dioceses.

O acordo não menciona a prática do aborto ou o casamento entre pessoas do mesmo sexo, acrescentou a embaixadora.

Segundo ela, a importância do acordo reside no fato de que o Brasil era a única das grandes nações católicas que não havia assinado um documento deste tipo com o Vaticano.

Segundo o último censo, de 2000, 73% da população brasileira é católica, mas segundo a Igreja, este número vem caindo nos últimos anos.

Amanhã, o presidente Lula se encontra com o papa Bento 16. Esta é a primeira vez que ele terá uma audiência privada com um papa no Vaticano.

Segundo Vera Machado, Lula e Bento 16 vão conversar sobre temas como a solução de conflitos, justiça social e meio ambiente.

Depois do encontro com o pontífice, Lula segue para Washington, onde participa da reunião dos chefes de Estado do G20, no sábado.

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