As mais de cem horas investidas em nove dias de intensas reuniões em Genebra, na Suíça, não foram suficientes para salvar a Rodada Doha do antagonismo entre Estados Unidos e Índia em relação a um mecanismo de salvaguarda, previsto no acordo, que permitiria aos países em desenvolvimento subir tarifas aduaneiras para se proteger de um surto de importações que possa prejudicar sua segurança alimentar. O fim das negociações, que se pressentia no clima tenso que predominava na sede da Organização Mundial do Comércio (OMC), foi anunciado na noite desta terça-feira pelo diretor-geral da instituição, Pascal Lamy.

"Foi um fracasso coletivo, mas as conseqüências não serão as mesmas. Para os países em desenvolvimento, a perda desse acordo significa perder uma oportunidade de conseguir que os subsídios internos nos países ricos fossem revisados", afirmou o comissário de Comércio da União Européia, Peter Mandelson.

A seu lado na sala de imprensa, a comissária européia de Agricultura, Marianne Fischer-Boel, visivelmente emocionada, sentenciou que "o mundo será mais imprevisível sem esse acordo".

Mandelson destacou o trabalho de sua equipe a favor do acordo e lembrou que enfrentou muitas críticas dentro de casa em relação às concessões que fez com o objetivo de facilitar o acordo e elogiou a postura do ministro brasileiro das Relações Exteriores, Celso Amorim, nas negociações.

Acusações
Ao lamentar "profundamente" o resultado dessa semana de trabalho, o chanceler brasileiro defendeu que "se há um país que está fora desse jogo de culpa (pelo fracasso), esse país é o Brasil".

"O Brasil fez tudo o que podia para permitir esse acordo, inclusive abriu mão de interesses que eram seus. Estávamos dispostos a ceder mesmo em um tema que é de nosso interesse, como as salvaguadas", afirmou Amorim.

"É um absurdo que tudo tenha acabado por uma questão de números (que definem as condições para a aplicação das salvaguardas)."
O ministro evitou apontar culpados para o naufrágio das negociações e disse que estava disposto a aceitar o que quer que fosse decidido entre Estados Unidos e Índia.

"Tudo o que queríamos era um mecanismo de salvaguarda balanceado, que fosse fácil de acionar e que não nos obrigasse a esperar uma alta de preços muito grande para acioná-la", justificou a ministra de Comércio de Indonésia, Marie Pangesto, cujo grupo que preside, o G-33, endossou as exigências indianas.

Abatida e impaciente, a representante comercial americana, Susan Schwab, culpou esse grupo de países pelo fracasso.

"É lamentável que uma negociação lançada para liberalizar o comércio mundial tenha terminado justamente por causa das exigências de alguns países para fechar seus mercados para importações", disse.

Futuro
Para Pascal Lamy o fracasso foi "decepcionante", mas não foi completo.

"Tínhamos 20 temas para acertar, conseguimos fazê-lo com 18 e fracassamos ao chegar ao décimo nono. Se chegamos a acertar 18 temas, ficamos com esse material acumulado sobre a mesa para o futuro", insistiu.

O diretor-geral da OMC não mencionou o vigésimo tema: os subsídios americanos ao algodão, que poderiam ter sido os responsáveis pelo fim das negociações se o Grupo dos Sete tivesse conseguido superar a questão das salvaguardas.

Lamy afirmou que continuará "investindo na criação de um sistema comercial mundial melhor" e que tentará retomar a rodada, mas admitiu que ainda não sabe quando, nem como.

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