Ansiedade pode ter raiz genética, diz estudo

Cientistas na Alemanha e nos Estados Unidos dizem ter encontrado evidências que relacionam a ansiedade a fatores genéticos. Segundo os pesquisadores, características genéticas poderiam ajudar a explicar por que experiências traumáticas dão apenas lembranças ruins a algumas pessoas, enquanto outras desenvolvem condições como o transtorno de estresse pós-traumático.

BBC Brasil |

Os resultados do estudo estão incluídos na edição de agosto da publicação científica Behavioral Neuroscience, publicada pela Associação de Psicologia Americana.

O experimento dos cientistas demonstrou que indivíduos portadores de uma variação no gene que regula o neurotransmissor dopamina apresentam uma resposta reflexa exagerada quando observam imagens desagradáveis.

Para os especialistas, a revelação oferece uma explicação bioquímica para a dificuldade que algumas pessoas têm de superar emoções desagradáveis.

Sua sensibilidade poderia, em combinação com outros fatores hereditários e ambientais, torná-los mais inclinados a sofrer de transtornos relacionados à ansiedade.

Experimento
Os pesquisadores - entre eles Martin Reuter, da Universidade de Bonn, na Alemanha - recrutaram 96 mulheres com idades em torno de 22 anos.

Primeiro, os especialistas determinaram que participantes carregavam as diferentes variações do gene COMT. Este gene quebra a molécula de dopamina.

As variações são chamadas Val158 e Met158. Cerca de a metade da população possui uma cópia de cada variação. O resto da população traz ou duas cópias da Val158 ou duas cópias da Met158.

Na segunda parte do teste, as voluntárias observaram imagens de cenas agradáveis, neutras e desagradáveis.

Enquanto viam as fotos, um aparelho produzia estampidos repentinos e aleatórios, fazendo com que as mulheres piscassem.

Eletrodos conectados aos músculos dos olhos das voluntárias mediam a intensidade do choque (ou susto) sentido por cada uma.

Uma análise comparativa das diferentes reações revelou que as portadoras de duas cópias da variação Met158 do gene COMT apresentaram reações mais fortes às imagens desagradáveis do que as portadoras de duas cópias da variação Val158 ou das que traziam uma cópia de cada variação.

As voluntárias que traziam duas variações Met158 também apresentaram maiores sinais de ansiedade quando fizeram um teste básico de personalidade.

Os resultados confirmam a teoria de que variações específicas no gene que regula a ação da dopamina pode exercer um papel importante nas emoções negativas.

Conclusões
Os autores acham que é possível que a variação Met158 esteja associada a níveis maiores de dopamina na região pré-frontal do córtex cerebral.

Isso poderia resultar em um "foco inflexível de atenção" sobre estímulos desagradáveis - ou seja, os portadores não conseguiriam se desligar de algo que produz uma determinada emoção, mesmo que se trate de uma emoção ruim.

A variação Met158 é recente na história evolutiva do homem e não está presente em outros primatas.

O psicólogo Christian Montag, co-autor do estudo, disse que para os seres humanos, a cautela pode ter tido uma função importante. "Era vantajoso ser ansioso em um ambiente perigoso", disse Montag.

Ele explicou, também, que uma única variação genética pode explicar apenas uma pequena variação no comportamento ansioso - caso contrário, teoricamente, metade da população seria ansiosa.

"Esta única variação genética é potencialmente apenas um entre muitos fatores influenciando um traço tão complexo como a ansiedade", disse.

"Ainda assim, identificar os primeiros candidatos para genes associados a uma personalidade com tendência à ansiedade é um passo na direção certa", acrescentou.

Montag explicou que são necessárias muitas pesquisas sobre o assunto.

Mas disse que se esta linha de pesquisa trouxer frutos, um dia "talvez seja possível receitar a dose certa da droga certa, relativa a uma composição genética, para tratar transtornos de ansiedade".

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