Pesquisa norte-americana com a droga mostrou bons resultados com pacientes bipolares resistentes a outros tratamentos

Um novo estudo sugere que um medicamento de 50 anos, comumente usado como anestésico para humanos e animais – e abusado, como na droga chamada de cetamina –, pode proporcionar alívio quase instantâneo em alguns dos casos mais preocupantes de transtorno bipolar.

Já se sabe há muitos anos que pequenas doses do medicamento, o cloridrato de cetamina, podem aliviar depressões profundas. Este estudo, conduzido por pesquisadores do Instituto Nacional de Saúde Mental dos EUA, é o primeiro a demonstrar eficácia em pacientes com transtorno bipolar resistente a tratamento.

Substância usada em anestésico pode virar tratamento para depressão
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Substância usada em anestésico pode virar tratamento para depressão
De fato, segundo os pesquisadores, o efeito nesse grupo pareceu ser ainda maior. Embora o estudo seja pequeno, com apenas 18 pacientes, ele foi conduzido sob os mais altos padrões para um estudo de medicamentos: aleatório, controlado com placebo e duplo-cego.

No transtorno bipolar, algumas vezes chamado de doença maníaco-depressiva, os pacientes alternam períodos de euforia e depressão profunda, e a fase depressiva carrega alto risco de suicídio. O problema é comumente tratado com estabilizadores de humor, incluindo lítio, anticonvulsivos e alguns antipsicóticos, frequentemente em combinações complexas.

Tanto a mania quanto a depressão melhoram com esses medicamentos. Quando a depressão permanece, porém, ela é notoriamente difícil de tratar – assim, um medicamento de ação rápida com efeitos duradouros traria vantagens óbvias. A cetamina provavelmente age limitando a ação de um tipo de receptor cerebral que move sinais de nervos entre neurônios.

O tratamento ainda é experimental, explicou o Dr. Carlos A. Zarate Jr., principal autor do estudo, publicado na edição de agosto do periódico Arquivos de Psiquiatria Geral (do inglês, The Archives of General Psychiatry).

Como a cetamina já é aprovada como anestésico, os médicos podem prescrevê-la para outras finalidades. Zarate, um pesquisador clínico dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA, adverte sobre o procedimento.

“Não estou encorajando seu uso clínico no momento”, disse ele. “Precisamos de mais conhecimento a respeito de segurança e dados de longo prazo sobre sua eficácia, além de como ela interage com outros antidepressivos”.

Os 18 pacientes do estudo haviam tomado lítio, ou o anticonvulsivo valproato, por pelo menos seis semanas sem melhorar. Eles foram aleatoriamente selecionados para receber uma infusão intravenosa de cetamina ou uma solução salina como placebo, com duas semanas de intervalo, com cada um recebendo o medicamento em uma ocasião e a solução salina na outra. Nem os pacientes e nem os pesquisadores sabiam qual solução estava sendo administrada.

Testes mostraram que os pacientes que receberam cetamina mostravam significativamente menos sintomas que aqueles tomaram o placebo – com início 40 minutos após a infusão e durando até três dias. Depois disso, o efeito da cetamina começava a desaparecer e, duas semanas depois, os participantes mostravam praticamente os mesmos sintomas de depressão que os do grupo do placebo.

Não houve efeitos colaterais graves, embora cerca de 10% de todos os participantes tenham sentido dores de cabeça ou náuseas, ou tenham se sentido confusos ou letárgicos após as infusões – tanto do placebo quanto da cetamina.

Os efeitos adversos associados somente à cetamina incluíram boca seca, sentimento de estranheza, aumento da pressão arterial ou batimentos cardíacos acelerados. Após cerca de 80 minutos, não houve diferenças entre os grupos da cetamina e do placebo.

Os cientistas consideram essas descobertas como altamente significativas, pois os pacientes haviam fracassado numa média de sete experimentos com antidepressivos, e mais da metade não havia reagido à terapia eletroconvulsiva. Eles também destacaram as limitações do estudo. O número de pacientes era pequeno, todos estavam bastante avançados em suas doenças e todos também tomavam valproato ou lítio, o que pode ter afetado os resultados. Finalmente, houve um pequeno – porém insignificante – efeito placebo.

O Dr. Dost Ongur, professor-assistente de psiquiatria em Harvard, duvidou que o experimento pudesse ser realmente duplo-cego – os vívidos efeitos da cetamina injetada podem ser fáceis de identificar, tanto pelo paciente quanto pela pessoa administrando a injeção. Mesmo assim, ele confessa que ficou impressionado com o estudo.

“É um trabalho sólido, que realmente tem potencial para ser um verdadeiro avanço”, comentou. “Existe uma esperança e uma empolgação real em torno disso, mesmo com o ceticismo de algumas partes”.

* Por Nicholas Bakalar

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