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Analistas vêem pragmatismo da Vale em negociação com China

A decisão da mineradora Vale do Rio Doce de ceder aos pedidos da China e não reajustar o preço do minério de ferro em quase 12% foi uma ação realista e pragmática dada a tendência negativa do mercado, acreditam analistas chinesas ouvidas pela BBC Brasil. A retirada do pedido de aumento do preço encerra as ameaças da China de boicotar o minério brasileiro.

BBC Brasil |

"A Vale está sendo puramente pragmática", afirmou Bonie Lui, analista de metais do banco Macquarie em Xangai.

"A decisão de retirar o pedido de aumento é uma ação realista e pragmática, que depende das condições do mercado na China", reforça Du Wei, especialista em metais do site umetal.com.

De acordo com ambas as analistas, o problema com a proposta brasileira é que ela veio em má hora, quando há excesso de minério de ferro estocado nos portos da China e a economia começa a desacelerar.

"O momento não é bom para pedir um aumento. Há muito minério parado. Tem mais oferta que a demanda, então nada justifica um aumento", explicou Lui.

"A demanda por minério de ferro está despencando e os preços caem bruscamente em meio à situação econômica. A produção de aço em muitas siderúrgicas já parou", disse Du Wei.

Flexíveis
As negociações entre a mineradora e a China estavam em impasse desde setembro e só se resolveram agora que lado brasileiro amoleceu.

"Nós precisamos ser flexíveis", justificou em entrevista à imprensa na segunda-feira em Nova York o presidente da Vale, Roger Agnelli.

Agnelli afirmou que não pretende desistir de conseguir um aumento, mas que isso será negociado no futuro. "Não gosto de pagar a conta sozinho", reconheceu.

"Vamos falar dessa questão com os chineses em 2009", disse. "A questão hoje é estar próximo, dar apoio, cuidar bem dos nossos clientes e vice-versa."
A situação se complicou para a Vale porque atravessadores trouxeram muito minério de ferro para a China, saturando o mercado de pronta-entrega, ou "spot", que costuma ter preços mais altos.

Normalmente os valores praticados pela mineradora não são influenciados por esse segmento de mercado porque a Vale negocia diretamente com os grandes compradores contratos de longa duração.

Entretanto, como no começo de outubro já havia mais de 70 milhões de toneladas ociosas na China, a Associação de Ferro e Aço do país ameaçou utilizar esse minério e importar mais de outros países como Índia e Austrália para pressionar a Vale a não aumentar os preços.

Além do excesso na oferta, há também a queda na demanda. Inúmeras siderúrgicas menores fecharam as portas em meio à tempestade econômica mundial.

Desaceleração
Números divulgados pela imprensa estatal chinesa indicam que a produção de aço na China está desacelerando.

Na primeira metade deste ano a produção de aço cresceu 9,61% e totalizou 216 milhões de toneladas. Apesar de expressivo, esse aumento ainda foi 9,31 pontos percentuais menor do que a expansão observada no mesmo período do ano passado.

Previsões para o futuro global e da indústria de aço na China são pessimistas.

"A indústria de aço como um todo entrará no prejuízo a partir do quarto trimestre", afirmou à Bloomberg o presidente da siderúrgica Baosteel, Xu Lejiang.

De acordo com Xu, o consumo de aço deverá cair para menos de 489 milhões de toneladas, volume total produzido pelo país no ano passado. Isso causará "um sério desequilíbrio entre demanda e oferta", acredita Xu.

"Eu não sei dizer para vocês o tamanho (da crise econômica), mas ela é muito maior do que qualquer pessoa presente aqui pode imaginar" afirmou Agnelli.

Na semana passada a Vale anunciou um corte de 20% na sua produção mundial para ajustar a oferta de minério a um cenário econômico cinzento.

"Cerca de 40% do PIB da China é investimento. Desses, cerca de 13% são investimentos em infra-estrutura. Vamos ver se isso será o suficiente pra segurar a demanda por aço", sugeriu Bonnie Lui.

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