limites da atuação do governo na crise do Senado - Mundo - iG" /

Analistas questionam limites da atuação do governo na crise do Senado

A decisão do PT de trabalhar para impedir a investigação no Congresso das acusações de uso do cargo em benefício próprio contra o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), reflete uma opção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva pela preservação da aliança com o PMDB, de olho nas eleições de 2010, segundo analistas ouvidos pela BBC Brasil. Um dos principais aliados do governo no Congresso, Sarney enfrenta uma série de acusações, incluindo a de utilizar o cargo de presidente do Senado para nomear e exonerar parentes por meio de atos secretos.

BBC Brasil |

Para o cientista político e diretor do Centro de Pesquisa e Comunicação (Cepac), Humberto Dantas, ao atuar a favor de Sarney, Lula vem "sistematicamente" rompendo com princípios que marcaram a atuação do PT na história política do país, como o combate à corrupção e ao uso da administração pública para fins pessoais.

"Mesmo dentro do jogo político e do pragmatismo, existem certos limites", diz Dantas. "A aproximação ao PMDB e ao senador José Sarney não compensam o desgaste pelo qual o presidente Lula e seu partido estão passando."
Durante a sessão do Conselho de Ética do Senado que arquivou as denúncias contra Sarney, na quarta-feira, o PT divulgou uma nota em que orientava os senadores do partido a votar pelo arquivamento.

No texto, o presidente do partido, Ricardo Berzoini, pedia a apuração das irregularidades pelo Ministério Público e pela Polícia Federal, mas atribuía a crise em torno de Sarney a uma "disputa política relacionada às eleições de 2010".

"A forma como as denúncias concentram-se no presidente do Senado, José Sarney, não deixa dúvidas de que, mais que apurar e reformar, a pretensão é incidir nas relações entre partidos, que apoiam o governo ou que podem constituir alianças para as eleições nacionais e estaduais do próximo ano", dizia a nota.

Após a divulgação da nota, o senador Flávio Arns (PT-PR) disse que o partido "pegou a folha da ética e jogou no lixo" e anunciou que está deixando o PT.

O líder do partido no Senado, Aloizio Mercadante (SP), também chegou a ameaçar deixar a liderança da bancada, mas recuou da decisão após uma conversa com o presidente Lula.

Em discurso no Plenário do Senado, nesta sexta-feira, Mercadante disse que a aliança com o PMDB deve ser "preservada", mas que algumas questões defendidas pelo PT "não podem se perder em nome da governabilidade".

Eleições
A aliança com o PMDB, maior partido não apenas no Congresso Nacional, mas também com forte presença em todas as regiões, é considerada peça fundamental nas eleições presidenciais do próximo ano.

Além disso, a parceria com o PMDB pode dobrar o tempo a que o PT terá direito no horário eleitoral gratuito, canal de campanha importante principalmente para candidatos que não são conhecidos do grande público, como no caso da ministra da Casa Civil, Dilma Roussef.

De acordo com a última pesquisa do Datafolha, a preferência pela ministra é de 16%, mesmo número registrado no levantamento anterior. O governador de São Paulo, José Serra, aparece com 37% e o deputado federal Ciro Gomes, com 15%.

O cientista político Fábio Wanderley Reis, da Universidade Federal de Minas Gerais, diz que o presidente Lula fez um "cálculo": o de que vale sofrer o desgate de apoiar o PMDB e, assim, ter o respaldo do partido à candidatura da ministra Dilma.

"Ao defender o senador José Sarney, mesmo colocando sua própria imagem em risco, o presidente Lula mostra o quanto ainda precisa de seus aliados no PMDB", diz Reis.

"Essa aproximação condiz com a lógica do nosso sistema político, multipardiário e que, portanto, estimula essas coalizões. O fato de Lula se mostrar solidário a Sarney é algo explicável dentro da lógica do nosso sistema", acrescenta.

Custo "calculado"
Na opinião de Humberto Dantas, o sistema político brasileiro "estimula" coalizões e barganhas, pois cabe ao próprio presidente "costurar" a maioria no Legislativo, mas isso não impede o governante de "fazer escolhas".

"O próprio sistema obriga os governantes a fazer alianças improváveis. Mas vejo um certo exagero na aproximação entre o presidente Lula e o PMDB. O presidente pode, sim, fazer escolhas mais acertadas, mesmo dentro de um mesmo partido", diz o diretor do Cepac.

O professor Lúcio Rennó, do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília, avalia que o presidente Lula enfrenta um momento político "delicado", mas diz que isso "está longe de ser um problema para o governo".

"Sim, o presidente Lula tem forte relação de dependência com seus aliados no PMDB. Mas pelos cálculos do governo, o ganho nessa relação ainda é grande", diz o professor.

"Mesmo que esses escândalos criem uma demanda pela moralização na política, na visão do governo Lula o PMDB é fundamental para eleger um sucessor em 2010", conclui Rennó.

    Leia tudo sobre: iG

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG