ANÁLISE-Tom de Obama agrada Oriente Médio, mudanças exigem tempo

Por Jonathan Wright CAIRO (Reuters) - O governo do presidente eleito dos EUA, Barack Obama, será bem recebido no Oriente Médio com um novo tom de diálogo e compromisso com ações multilaterais, disseram analistas e diplomatas.

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Mas uma mudança real na política externa norte-americana em relação à região levará meses ou mesmo anos, enquanto Obama encontra seu caminho em meio aos complexos conflitos que o atual governo dos EUA, comandado pelo presidente George W. Bush, criou ou permitiu que se agravassem.

Enquanto os governos árabes enxergam no conflito Israel-Palestina a maior fonte de instabilidade da região, a administração Obama deve dar pouco destaque à questão em sua lista de prioridades, colocando-a abaixo de Iraque e Irã, por exemplo, disseram os analistas e diplomatas.

O Oriente Médio como um todo ficará muito atrás de problemas mais graves a serem enfrentados por Obama internamente -- entre os quais estimular o crescimento da economia e desemaranhar o novelo de créditos podres que ajudou a instalar a maior crise financeira do mundo nos últimos 80 anos.

"As pessoas (do Oriente Médio) terão de dosar suas expectativas. Se a expectativa delas for de uma mudança total, então estarão caminhando para a decepção", afirmou Ezzedine Choukri-Fishere, do Grupo Crise Internacional, um instituto de pesquisa.

Walid Kazziha, professor de ciências políticas na Universidade Americana no Cairo, disse que a incomum história pessoal de Obama -- filho de pai africano e tendo morado na Indonésia -- deve torná-lo mais sensível às questões que preocupam as pessoas de fora dos EUA.

"Há uma chance maior de ele ser humanista em sua postura. John McCain era tenso e confrontante. Obama é mais aberto", acrescentou.

"LEMBRANÇAS CONSISTENTES"

O professor Mahdi Elmandjra, que dá aulas em uma universidade marroquina, afirmou: "Nós podemos encará-la (a eleição de Obama) como um tipo de evolução em favor da paz como um ideal para toda a humanidade, sem discriminação de raça ou credo religioso." Mas acrescentou: "Não podemos ter ilusões e esperar mudanças drásticas de uma hora para outra."

Nos 21 meses de campanha para a eleição presidencial, Obama fez poucas promessas em relação ao Oriente Médio. Disse apenas que reduzirá o número de soldados norte-americanos no Iraque e ofereceu dialogar, sem precondições, com o Irã e a Síria.

Nos três debates que realizou com McCain, não lhe foram feitas perguntas sobre o conflito Israel-Palestina, assunto que dominou a política externa dos dois presidentes democratas anteriores -- Jimmy Carter e Bill Clinton.

No entanto, entre os assessores de política convocados por Obama, está Dennis Ross, principal mediador de Clinton no Oriente Médio, alguém que os palestinos envolvidos nas negociações de paz sempre consideraram exageradamente pró-Israel.

A vida política pregressa de Obama tampouco esclarece qual será sua atitude em relação aos conflitos do Oriente Médio.

No entanto, como ativista de esquerda em Chicago, Obama manteve contato com dois membros destacados da comunidade palestino-americana, o professor de literatura comparada Edward Said, já morto, e o historiador Rashid Khalidi -- algo incomum para um político norte-americano.

O jornal Los Angeles Times atribuiu a Obama, em abril, a declaração de que suas conversas com esses dois acadêmicos haviam servido de "lembranças consistentes de minha própria cegueira e de meus próprios preconceitos."

O professor Kazziha, da Universidade Americana no Cairo afirmou: "Eu acho que ele (Obama), lá no fundo, na conversa dele com ele mesmo, reconhece que há alguma injustiça e que pessoas como Rashid (Khalidi) tinham ajudado-o a ver a luz."

"No entanto, ele é também um político nato que não implodirá sua base política em nome de uma causa justa. Ele terá de avaliar seu eventual segundo mandato e quem lhe dará apoio dentro dos EUA", acrescentou.

(Reportagem adicional dos escritórios da Reuters em Beirute, Teerã e Marrocos)

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