ANÁLISE-Sem Betancourt, Farc perderam poder de negociação

Por Luis Jaime Acosta BOGOTÁ (Reuters) - A maior guerrilha da Colômbia não apenas sofreu um dos piores golpes de sua história com o resgate da ex-candidata presidencial Ingrid Betancourt, três norte-americanos e 11 membros das Forças Armadas colombianas, mas também perdeu seu poder de pressão na hora de negociar.

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A política franco-colombiana, de 46 anos, e os norte-americanos Keith Stansell, Marc Gonsalves e Thomas Howes eram considerados os reféns mais valiosos das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), com os quais pressionavam o governo para a realização de uma troca humanitária.

Agora, debilitado também por ter perdido seus principais dirigentes em poucos meses, o grupo guerrilheiro mais antigo da América, que há mais de quatro décadas tenta impor o socialismo à Colômbia, está diante do dilema de seguir com sua luta armada na selva ou negociar a paz.

'Acabou o jogo internacional das Farc porque perderam as cartas mais importantes: Ingrid e os três norte-americanos.

Agora deve-se buscar a libertação dos outros 25 sequestrados que podem ser trocados', disse o ex-presidente colombiano Ernesto Samper.

O resgate na quarta-feira de Ingrid Betancourt, um símbolo mundial do sequestro, e de outros 14 reféns se converteu no maior triunfo do governo do presidente colombiano, Álvaro Uribe, que conduz uma ofensiva militar contra as Farc, com o apoio dos Estados Unidos.

A operação também coroou um processo de derrota para a guerrilha, que no último ano perdeu cinco de seus principais comandantes em operações militares, incluindo Raúl Reyes, ao mesmo tempo que centenas de seus membros desertaram.

As Farc também sofreram outro revés em março, com a morte de seu fundador e líder máximo, Manuel Marulanda, vítima de um ataque cardíaco.

O analista Alfredo Rangel disse que com o resgate, executado sem um só disparo e sem a perda de nenhuma vida, a guerrilha perdeu a condução da questão da troca humanitária de reféns por presos e ficou sem possibilidades de impor as condições.

'Isto põe por terra as pretensões das Farc de imporem as condições para um intercâmbio humanitário', afirmou o especialista.

A guerrilha exigia que Uribe retirasse o Exército e a polícia de uma área montanhosa de 780 quilômetros quadrados no sudoeste do país, para ali estabelecer uma zona de segurança na qual seus delegados se reuniriam com os do governo para negociar um acordo.

O grupo rebelde pretendia trocar os reféns políticos por 500 guerrilheiros presos, mas o presidente colombiano, que lidera uma ofensiva contra as Farc, sempre se negou a desmilitarizar a região que a guerrilha exigia.

O governo de Uribe sofreu pressão internacional nos últimos anos para encontrar uma saída política ao drama dos reféns, mas, fiel a sua característica de persistência, o presidente manteve sua posição. Mesmo aberto à possibilidade do diálogo, jamais descartou a opção militar.

Continuam em poder da guerrilha 25 reféns políticos, entre eles o ex-governador Ala Jara, o ex-deputado regional Sigifredo López, o ex-parlamentar Oscar Tulio Lizcano e 22 soldados e policiais.

O catedrático universitário Armando Barrerro afirmou que a libertação dos outros reféns políticos seria mais fácil sem a pressão internacional.

Mas o presidente do partido de esquerda Polo Democrático Alternativo, Carlos Gaviria, pediu à comunidade internacional que não se esqueça dos demais reféns que continuam sequestrados na selva.

'(Faço) Um apelo à comunidade internacional para que não se esqueça dos cidadãos e cidadãs que continuam sequestrados, pelo fato de que Ingrid e os norte-americanos eram como símbolo da luta contra o sequestro', afirmou o político.

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