ANÁLISE-Obama pode ter relações difíceis com Vaticano

Por Philip Pullella CIDADE DO VATICANO (Reuters) - Dois meses atrás, uma autoridade do Vaticano classificou os democratas norte-americanos como o partido da morte porque a legenda é favorável ao direito de realizar abortos.

Reuters |

No entanto, as palavras da Santa Sé não encontraram ouvintes entre os milhões de católicos dos Estados Unidos que votaram em Barack Obama.

Agora, o Vaticano terá de enfrentar o primeiro governo norte-americano pró-direito ao aborto desde o ex-presidente Bill Clinton, que manteve relações tensas com a Igreja Católica.

"A maior parte dos católicos ignorou os bispos que lhes disseram para não votar em um candidato pró-direito ao aborto", escreveu o reverendo Tom Reese, professor do Centro Teológico Woodstock, da Universidade Georgetown, no blog "On Faith", do jornal The Washington Post.

Horas depois da eleição de Obama, que durante muitos anos frequentou uma igreja cristã de negros, o Vaticano disse esperar que "Deus o ilumine e que o ajude em sua grande responsabilidade.

"Ela (a mensagem do papa a Obama) pede a bênção de Deus para o povo norte-americano a fim de que junto com toda a população de boa-fé possam construir um mundo de paz e de justiça", afirmou o reverendo Federico Lombardi, porta-voz-chefe do Vaticano.

Em setembro, o arcebispo Raymond Burke, um norte-americano que ocupa um cargo de destaque dentro da Santa Sé, disse que o Partido Democrata "corre o risco de transformar-se em um partido da morte" por causa de sua postura quanto às questões bioéticas e ao aborto.

Vários bispos norte-americanos também fizeram apelos durante as eleições lembrando da bioética e do aborto. No entanto, essas declarações parecem não ter encontrado eco.

"A população laica repudiou a descrição feita pelo arcebispo Burke sobre o Partido Democrata ser o partido da morte", afirmou Reese.

MAIORIA DOS CATÓLICOS VOTOU EM OBAMA

Quase 25 por cento dos norte-americanos adultos -- cerca de 30 milhões deles -- são católicos e, segundo pesquisas de boca-de-urna citadas no site Beliefnet (que não se filia a nenhum credo religioso), cerca de 54 por cento deles votaram em Obama (contra 46 por cento que votaram no republicano John McCain).

Especialistas afirmam que a economia se transformou na principal questão de muitos católicos nesse pleito, assunto esse que, junto com a guerra no Iraque e o sistema público de saúde, deixaram em um segundo plano o direito ao aborto.

Grupos como os Democratas Católicos declararam apoio a Obama, argumentando que o partido dele apoiava programas sociais que davam às mulheres condições para ter seus filhos -- entre esses programas estaria o de aumento do salário mínimo.

O argumento parece ter ajudado a conquistar muitos católicos, bem como o fez a presença na chapa democrata de Joseph Biden, um homem de raízes operárias que se transformará no primeiro vice-presidente católico dos EUA.

Biden, que vai à missa todos os domingos, comentou certa vez: "O próximo republicano que me acusar de não ter uma religião vai receber meu rosário goela abaixo."

Nesta eleição, os católicos mostraram ser votantes capazes de sopesar várias questões. No entanto, o aborto pode sair das sombras para prejudicar as relações entre o Vaticano e os EUA durante o governo Obama.

Isso significaria um regresso à época de relações tensas verificada nos anos do governo Clinton (1993-2001), quando os dois lados entraram em choque aberta e duramente a respeito do aborto e de programas de controle do crescimento populacional.

Os problemas com o Vaticano poderiam começar se Obama oficializar a Lei de Liberdade de Escolha, que passaria por cima de algumas restrições à prática do aborto, tais quais consentimento dos pais e períodos de espera, restrições essas que muitos católicos desejam ver preservadas.

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