ANÁLISE-Obama mantém distância da cúpula financeira do G20

Por Caren Bohan WASHINGTON (Reuters) - O presidente eleito nos Estados Unidos, Barack Obama, está claramente se distanciando da cúpula financeira global de emergência deste fim de semana em Washington, uma decisão que o afasta das políticas de seu impopular antecessor e previne a possibilidade de o presidente atual ficar em segundo plano.

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"Ele quer apagar o passado e recomeçar", disse Ross Baker, analista político na Rutgers University em Nova Jersey. Baker afirmou que Obama parece sensível às convenções sociais e não quer dar a impressão de estar determinando políticas, quando "ele ainda não colocou as mãos na Bíblia" para fazer o juramento para o novo posto.

O presidente George W. Bush tem se mostrado aberto para que Obama participe da cúpula de líderes do G20 na sexta-feira e no sábado, que vai incluir grandes economias industriais e em desenvolvimento, como França, Grã-Bretanha, Itália, China, Brasil e Índia.

No entanto, nem Obama nem seus assessores vão comparecer ao encontro.

"Ele está muito interessado e considera que seria muito bom comparecer à reunião. Mas na frase que vocês vão ouvir um número excessivo de vezes entre agora e 20 de janeiro, existe apenas um presidente de cada vez", disse a repórteres na segunda-feira o assessor sênior de Obama, Robert Gibbs.

Bush colocou Dan Price, um especialista da Casa Branca em economia internacional, como encarregado de instruir Obama e sua equipe. "Nós estamos discutindo a cúpula com representantes do presidente recém-eleito e buscando suas contribuições e suas visões", disse o porta-voz da Casa Branca, Tony Fratto.

COREOGRAFIA CAUTELOSA

Ainda que Obama quisesse comparecer à cúpula, especialistas dizem que ele não teria tempo para se preparar para ela.

Obama, que entrou para a história uma semana atrás como o primeiro presidente negro eleito nos Estados Unidos, substitui Bush no cargo presidencial em 20 de janeiro. Ele ainda tem que escolher seu secretário do Tesouro e outros integrantes de sua equipe econômica.

"Existe uma coreografia muito cautelosa ocorrendo nesses eventos", disse Simon Johnson, ex-economista chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI) e que agora está no Peterson Institute for International Economics. "Os preparativos podem levar semanas, se não meses", disse Johnson.

Reginaldo Dale, especialista no Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, também considera que a abordagem de Obama é inteligente.

"Eu acho que ele quer ter as mãos livres após a posse", disse Dale. "Se ele ficar associado à cúpula de maneira muito próxima, ele pode se ver ligado às visões com as quais pode não necessariamente concordar."

Democrata, Obama criticou acentuadamente durante a campanha as políticas econômicas de Bush e disse que elas estabeleceram o palco para a crise financeira. Mas, nos bastidores, ele também conversou de perto com o secretário do Tesouro do governo Bush, Henry Paulson, e apoiou o pacote de resgate de 700 bilhões de dólares aprovado pelos republicanos no Congresso.

Tanto Obama quanto Bush, que se encontraram na Casa Branca na segunda-feira, enfatizaram um espírito cooperativo durante a transição.

Os assessores de Obama consideram isso como de seu interesse, para previnir a desaprovação pública que poderia agravar a crise financeira que o presidente está fadado a herdar.

Temores de que a turbulência financeira global possa levar a uma recessão profunda estimularam o presidente da França, Nicolas Sarkozy, e o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, a convocar uma nova versão da reunião de Bretton Woods, de 1944.

O encontro de New Hampshire, realizado na esteira da Segunda Guerra Mundial, levou à criação do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial e determinou os fundamentos da estrutura financeira contemporânea.

A expectativa sobre o encontro do G20 nesse fim de semana não está nada próxima da realização de uma revolução. No entanto, analistas dizem que esse pode ser o início de um processo que poderá levar às mudanças tão urgentemente necessárias no desgastado sistema financeiro mundial.

Com a pouca influência de Bush e a ausência de Obama, as esperanças de grandes avanços no encontro se reduziram.

Obama endossou fortemente a cooperação internacional para a revisão do sistema financeiro, uma visão a que aderiu antes do derretimento dos mercados em meados de setembro.

Alguns líderes estrangeiros tinham a esperança de, durante sua visita à capital norte-americana, encontrarem-se com Obama.

Enquanto Gibbs, assessor de Obama, dizia que o presidente eleito não vai se sentar com líderes nos corredores da cúpula, ele não descartou a possibilidade de alguns auxiliares de Obama poderem se encontrar com autoridades visitantes.

Vários desses auxiliares, incluindo o ex-secretário do Tesouro, Lawrence Summers, e o ex-chairman do Federal Reserve, Paul Volcker, mantêm relações de longa data com muitas autoridades estrangeiras.

(Reportagem adicional de Deborah Charles)

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