ANÁLISE-Legado de Bush inclui guerras e crise econômica

Por Matt Spetalnick WASHINGTON (Reuters) - Duas guerras inacabadas, a economia em recessão profunda, déficit orçamentário prestes a atingir 1 trilhão de dólares e a imagem dos Estados Unidos manchada no exterior. Desde que Herbert Hoover deixou para Franklin Roosevelt a Grande Depressão não se via um presidente norte-americano legar a seu sucessor uma quantidade tão assustadora de problemas quanto a que George W. Bush transmitirá para Barack Obama quando este assumir o poder, em 20 de janeiro.

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Enquanto Bush e seus defensores insistem que a história adotará uma visão mais amena para seu legado, historiadores já debatem se ele será considerado o pior presidente dos últimos tempos, colocando-o na companhia de Herbert Hoover, Warren Harding e James Buchanan.

Alguns estudiosos dizem que é muito cedo para anunciar um veredicto, mas muitos já fecharam questão.

"Será que alguém realmente duvida que essa foi uma péssima presidência?", disse a cientista política Shriley Anne Warshaw, do Gettysburg College, na Pennsylvania. "Tudo que restou para saber é até que ponto ele vai na lista (dos piores presidentes)."

Uma geração atrás, Ronald Reagan, o herói republicano de Bush, pediu que os norte-americanos pensassem se eles estavam melhores do que quando seu oponente democrata, Jimmy Carter, entrou na Casa Branca.

Seguindo esse modelo, a comparação não favorece Bush. Encerrando seus oito anos de mandato em meio à pior crise financeira em 80 anos, ele deixa o governo com uma das mais baixas taxas de aprovação dos presidentes da era moderna -- na faixa em volta de pouco mais de 20 por cento.

O amplo apoio obtido por ele após os ataques de 11 de setembro de 2001 há muito desapareceu, dissipado pela impopular guerra no Iraque, por uma resposta inepta ao Furacão Katrina e pelo derretimento em Wall Street que respingou na Main Street.

Internamente, o desemprego é o mais alto em 16 anos, os mercados hipotecários estão implodindo e as economias dos cidadãos, evaporando.

Como ponto positivo, o principal feito de Bush dentro dos EUA pode ser algo que não aconteceu -- outro ataque em solo norte-americano.

"Não tivemos um ataque nos últimos sete anos", disse a porta-voz da Casa Branca, Dana Perino. "E isso é importante."

IRAQUE MARCA POLÍTICA EXTERNA

No exterior, o legado de Bush será em boa parte definido pelo Iraque. Ficará para Obama a responsabilidade de definir uma estratégia de retirada e a reparação dos danos à credibilidade dos EUA.

Bush viajou a Bagdá no mês passado na esperança de exibir os ganhos com a segurança local, mas a imagem que ficará será a do presidente escapando dos sapatos jogados por um jornalista iraquiano furioso.

Os esforços de Bush para promover a paz entre israelenses e palestinos foram, na visão da maioria dos analistas, muito escassos e muito tardios. A crise na Faixa de Gaza, apesar dos anúncios de cessar-fogo na guerra de três semanas de duração entre Israel e o Hamas dias antes de Bush deixar o cargo, é vista como um epitáfio apropriado.

Bush também foi criticado, em especial na Europa, por suas resistências aos limites determinados por vários países às emissões de gases-estufa a fim de combater a mudança climática, ponto que aumentou a percepção de arrogância norte-americana, contra a qual Obama precisará lutar.

Por outro lado, Bush foi elogiado por estabelecer laços mais fortes com a Índia, estimular a China a ter um papel internacional mais construtivo e por combater a epidemia da Aids na África.

CRISE HISTÓRICA

No entanto, a crise financeira -- deflagrada após seis anos de presidência durante uma economia que seria invejada da maioria dos presidentes -- deverá coroar o legado de Bush.

Seu governo restabeleceu a intervenção governamental maciça, considerada um anátema às suas idéias anteriores favoráveis ao livre mercado.

Com a disseminação da crise em todo mundo, aumentaram as críticas contra o capitalismo ao estilo norte-americano, suscitando questões sobre o futuro do predomínio dos EUA dentro do sistema global.

Muitos especialistas dizem que a preocupação de Bush com a não-regulamentação contribuiu para o colapso, embora também concordem que há outros fatores a culpar. Como tudo isso aconteceu sob os auspícios de Bush, entretanto, ele provavelmente arcará com a culpa aos olhos da história.

Bush tem defendido firmemente suas posições, mas também parece mais reflexivo, admitindo a repórteres sua decepção de que nenhuma arma de destruição em massa tenha sido encontrada no Iraque e sobre o escândalo ao redor dos abusos dos prisioneiros de Abu Ghraib, que chocou o mundo.

Bush afirmou que a história o julgaria, mas apenas "depois de algum tempo". Ele insiste que no futuro será absolvido como Harry Truman, impopular quando deixou o governo e agora admirado por sua atuação durante a Guerra Fria.

"Truman é o santo patrono dos políticos fracassados", disse Douglas Brinkley, historiador da Rice University, em Houston, especialista em presidentes dos EUA. Ele sugeriu a comparação com um presidente bem diferente -- Hoover, que liderava os EUA quando começou a Grande Depressão.

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