ANÁLISE-Golpe em Honduras traz poucos riscos para esquerdistas

Por Stuart Grudgings RIO (Reuters) - O firme apoio dos Estados Unidos ao presidente hondurenho, Manuel Zelaya, destituído do cargo, reduziu drasticamente a chance de o golpe militar reacender tensões ideológicas na América Latina ou encorajar ações semelhantes contra outros governos de esquerda.

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Mas o fracasso em transformar palavras em ação para ajudar o presidente esquerdista a retornar ao cargo pode significar uma vitória de propaganda para os líderes socialistas da América Latina, que são aliados dele, e prejudicar os esforços dos EUA de reconstrução de sua liderança na região.

A aparentemente frágil situação do golpe diante do amplo consenso regional contrário provavelmente vai impedir a irrupção de ações semelhantes na região, historicamente propensa a golpes, disseram analistas.

"Este golpe é um fracasso ... porque o mundo mudou e estava claro antes de eles o desencadearem que não conseguiriam o apoio de ninguém no hemisfério", disse Mark Weisbrot da instituição Centro para Pesquisa de Políticas e Economia, de Wadhington. "Não acho que alguém se sentirá encorajado."

O presidente venezuelano, Hugo Chávez, inimigo da política externa e comercial dos EUA na América Latina, ameaçou iniciar uma ação militar em Honduras para restaurar Zelaya ao poder e reuniu seu bloco esquerdista desde o golpe do fim de semana, qualificando a crise como um ataque à democracia desfechado por forças imperialistas.

O presidente dos EUA, Barack Obama, se juntou aos líderes norte-americanos na segunda-feira ao condenar o golpe como ilegal, estabelecendo assim um contraste em relação a 2002, quando o governo norte-americano se posicionou contra o consenso regional ao apoiar inicialmente a tentativa de golpe contra o próprio Chávez.

'ROUBANDO A CENA'

"Parte do motivo pelo qual os EUA vão se posicionar tão firmemente contra o golpe tem a ver com a intenção de impedir Hugo Chávez de roubar a cena", disse Kevin Casas-Zamora, do Brookings Institution, um centro de estudos em Washington.

Ele acrescentou que, "se Zelaya for recolocado no poder, Chávez não poderá clamar vitória de sua revolução bolivariana", um termo inspirado no heroi da independência Simón Bolívar, que Chávez utiliza para descrever sua iniciativa de transformar a Venezuela em uma nação socialista.

Chávez culpou o ex-presidente norte-americano George W. Bush pelo golpe de 2002, no qual ele foi derrubado do poder por um breve período. Ele agora afirma querer uma investigação sobre qualquer participação que a Agência Central de Inteligência (CIA) possa ter tido na destituição de Zelaya.

A CIA esteve envolvida na derrubada de vários governos esquerdistas da América Latina. A Casa Branca diz que não houve nenhuma participação da CIA na deposição de Zelaya.

Ex-militar que chegou a liderar uma tentativa fracassada de golpe na Venezuela, Chávez sabe que tem inimigos que poderiam se sentir encorajados por uma bem-sucedida destituição de Zelaya em Honduras.

Chávez tem sido duro com governadores e prefeitos eleitos no ano passado, dos quais tirou poder e recursos. Algumas pessoas na Venezuela acreditam que, por ter humilhado a oposição no país, ele possa ter ampliado a credibilidade de radicais que acreditam em sua remoção pela força.

Evo Morales, o presidente boliviano, seu aliado socialista, enfrenta protestos e forte oposição de grupos empresariais conservadores e de políticos, e recentemente a polícia boliviana revelou o que Morales qualificou como conspiração para assassiná-lo.

Zelaya foi preso e enviado ao exílio em meio a uma disputa sobre sua iniciativa de permitir que o presidente hondurenho permaneça no poder por mais tempo do que o determinado pela Constituição do país -- uma tática que outros líderes esquerdistas, como Chávez e Morales, também adotaram.

Em vez de ser um sinal de alerta para os governos esquerdistas latino-americanos por levaram longe demais as iniciativas de mudança constitucional, o golpe em Honduras é um exemplo dos riscos de agir assim sem apoio político e militar suficiente, disseram analistas.

O apoio diplomático quase unânime dado a Zelaya, cuja investida para alterar a Constituição foi vista como antidemocrática por seus críticos, pode livrar outros líderes da região de criticas semelhantes no futuro, disse Chris Sabatini, da Americas Society-Conselho das Américas, um centro norte-americano de estudos.

"O ato inconstitucional que está sendo punido é o golpe de Estado, não as milhares de ações destrutivas que aconteceram antes, provocando a erosão de instituições democráticas", disse.

'SINAIS SUTIS'

Weisbrot e outros analistas disseram que os líderes do golpe vão procurar quaisquer sinais de ambivalência na posição dos EUA que possam indicar que Washington espera uma saída política sem o retorno de Zelaya.

"Este governo provavelmente tem um plano para se manter até o restante do mandato", disse Weisbrot, referindo-se à intenção do presidente interino, Roberto Micheletti, de reter o poder até a eleição presidencial de 29 de novembro.

"Eles vão procurar sinais sutis deste governo (Obama) sobre o que devem fazer."

Obama, ao afirmar que Zelaya é o único presidente hondurenho legítimo, disse que iria trabalhar em conjunto com a Organização dos Estados Americanos (OEA) e outras instituições internacionais para restaurar Zelaya ao poder e "ver se podemos resolver isto de um modo pacífico".

Tanto Obama como a secretária de Estado, Hillary Clinton, se referiram explicitamente à derrubada de Zelaya como um "golpe". Mas Hillary afirmou que por ora o governo não o está designando formalmente como golpe militar, um passo que forçaria os EUA a cortarem a maior parte de sua ajuda a Honduras.

Uma alta autoridade dos EUA, falando sob a condição de manter o anonimato, disse que por se ater à determinação legal de que houve um golpe Washington está tentando garantir espaço para um acordo negociado.

"Hillary Clinton parece um pouco menos propensa a isso do que Obama... Isso fará com que os EUA pareçam extremamente fracos se não puderem fazer o golpe retroceder", disse Peter Hakim, presidente do Diálogo Interamericano, um centro de estudos em Washington.

"O fato é que os EUA dizem que Zelaya é o presidente legítimo e muitos de nós estamos conscientes do tipo de influência que os EUA deveriam transmitir às pessoas que desfecharam o golpe."

(Reportagem adicional de Frank-Jack Daniel em Caracas)

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