ANÁLISE-EUA se fortalecem na América do Sul para frear potências

Por Eduardo Simões SÃO PAULO (Reuters) - A presença de militares norte-americanos em bases militares colombianas e o restabelecimento da Quarta Frota da Marinha dos EUA no Atlântico Sul são movimentos de Washington para reiterar sua influência na região.

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Na avaliação de especialistas, a estratégia segue a lógica global da política externa norte-americana, que não quer dividir espaço com outras potências na América do Sul.

"O recado que eles (Estados Unidos) estão dando é o seguinte: o hemisfério é área de influência norte-americana", disse à Reuters o coronel da reserva e pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos da Unicamp Geraldo Cavagnari.

Historicamente, os Estados Unidos têm buscado manter presença militar em todas as partes do globo e, segundo Rafael Villa, professor de Relações Internacionais da USP, a América do Sul não escaparia a essa tendência.

"O fato de a Guerra Fria ter acabado, não significa que os EUA se neguem a ter presença militar na região", disse o professor.

No final da semana passada, militares equatorianos retomaram o controle de uma base militar no porto de Manta, a 250 quilômetros de Quito, depois de o presidente do Equador, Rafael Correa, aliado do venezuelano Hugo Chávez na retórica anti-EUA na região, não renovar o acordo que permitia a permanência de militares norte-americanos na base.

"Para mim (a ocupação de bases na Colômbia) parece uma decorrência lógica do fato de Correa não querer renovar as bases no Equador", disse Villa, que aposta que Washington buscará incrementar ainda mais sua presença na região.

"Não me estranharia se o próximo país fosse o Peru", comentou. "Hoje há muitas coincidências políticas entre o governo peruano e o governo dos Estados Unidos."

Para o especialista em conflitos internacionais e professor da ESPM, Heni Ozi Cukier, toda essa movimentação não representa uma ameaça "a nenhum dos países da América Latina ou do Sul".

Cukier, que morou sete anos nos Estados Unidos e trabalhou no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), avalia que Washington sempre viu o Brasil como parceiro estratégico.

Para ele, a intensificação da presença militar norte-americana na América do Sul mira o crescente envolvimento de países de fora da região no hemisfério, caso de Rússia, China e Irã.

"Tudo isso é uma preocupação para os Estados Unidos, que veem isso como uma ameaça", disse. "Eles (EUA) projetam poder, mostrando que estão presentes para evitar que esses outros competidores globais comecem a fincar o pé na região", explicou.

ALVO LOCAL

Oficialmente, Washington diz que tanto o uso de bases colombianas como a reativação da Quarta Frota pretende ajudar no combate ao tráfico de drogas e ao terrorismo na região.

Mas para Cavagnari, da Unicamp, o Brasil é o principal "alvo" das medidas adotadas pelos EUA, pois estaria buscando aumentar seu poder na região e reduzir a influência de Washington ao patrocinar medidas como a criação da União das Nações Sul-Americanas (Unasul) e do Conselho Sul-Americano de Defesa.

"O que os Estados Unidos querem é bombardear essa intenção brasileira", afirmou.

Essa movimentação desagradou o Palácio do Planalto e gerou no presidente Luiz Inácio Lula da Silva preocupações com o possível reforço da influência norte-americana na América do Sul, segundo disse à Reuters uma fonte ligada ao governo, que pediu anonimato.

Procurado, o Ministério da Defesa disse, por meio da assessoria de imprensa, que vê o assunto mais no campo diplomático do que no militar, mas se queixou da ausência de uma "comunicação prévia" por parte dos EUA.

Autoridades brasileiras também têm expressado preocupações com a reativação da Quarta Frota, em área próxima aos recém-descobertos megacampos de petróleo na área do pré-sal, e com a ocupação das bases na Colômbia, país que divide fronteira com o Brasil na região amazônica.

(Reportagem adicional de Natuza Nery, em Brasília)

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