Por Daniela Desantis ASSUNÇÃO (Reuters) - A Venezuela deverá esperar um bom tempo para concluir sua adesão ao bloco sul-americano Mercosul, enquanto as reformas radicais do presidente Hugo Chávez continuarem irritando parlamentares do Paraguai e do Brasil.

A impossibilidade de que o país produtor de petróleo passe a integrar o pacto do qual fazem parte Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai se soma aos inconvenientes enfrentados pelo Mercosul nos esforços para consolidar a integração regional desde a criação do bloco, quase duas décadas atrás.

O protocolo de adesão foi aprovado pelos Congressos da Argentina e do Uruguai, mas não teve a mesma sorte nos Parlamentos do Brasil e do Paraguai, que têm arrastado a decisão há mais de dois anos, principalmente por questionamentos com relação ao presidente Hugo Chávez.

O governo do presidente paraguaio, Fernando Lugo, retirou na quinta-feira do Congresso o pedido de acordo de incorporação do país caribenho a fim de evitar que uma maioria do Senado rechaçasse a iniciativa, pondo em risco as relações entre ambos os países.

Lugo se aproximou dos governos esquerdistas da Bolívia, do Equador e da Venezuela desde que assumiu o poder, há um ano, e crê que o ingresso servirá de contrapeso para equilibrar a desigualdade entre as economias menores e as mais poderosas do pacto, que gera frequentes conflitos.

"Com uma negociação um pouco mais avançada com o Parlamento, seria possível chegar a uma circunstância favorável. Mais cedo ou mais tarde isso terá de ser aprovado", disse o ex-chanceler de Lugo, Alejandro Hamed, que assessora o mandatário em questões internacionais e é candidato a embaixador em Caracas.

Mas o presidente carece de maioria nas câmaras e mantém uma relação tensa com o Congresso, onde muitos membros criticaram a decisão de Chávez de revisar concessões de rádios e canais de televisão levando ao fechamento de mídias naquele país.

Outros qualificaram o mandatário de "totalitário e pseudodemocrata" e recordaram o protocolo de compromisso democrático firmado pelos membros plenos do Mercosul e seus associados, Bolívia e Chile, há mais de uma década na cidade argentina de Ushuaia.

"Basicamente, o que atrapalha é a questão ideológica e isso parece estar por cima das questões econômicas e comerciais", disse à Reuters um ministro do governo do ex-presidente paraguaio Nicanor Duarte, que também buscou promover a adesão e pediu para não ser identificado.

A Venezuela é o principal fornecedor de combustível ao mercado paraguaio e um possível mercado para a soja e a carne bovina local. Chávez não esteve presente à última cúpula de presidentes do bloco no Paraguai, apesar de sua presença ter sido anunciada por autoridades do país anfitrião.

No Brasil, o pedido de adesão foi aprovado pela Câmara dos Deputados e está parado há meses na Comissão de Relações Exteriores do Senado, onde há correntes a favor e contra, incluindo entre aliados do governo, apesar do apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à iniciativa.

O Senado brasileiro tem tido vários entreveros com Chávez, que se queixou da demora em aprovar a iniciativa e chegou a acusar os parlamentares brasileiros de seguirem as ordens dos Estados Unidos, alvo frequente dos duros ataques do mandatário.

(Com reportagem de Julio Villaverde, no Rio de Janeiro)

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