ANÁLISE-Acordo EUA-Colômbia afeta narcotráfico, mas cria tensão

Por Patrick Markey BOGOTÁ (Reuters) - Aviões militares dos EUA ainda não começaram a decolar de novas bases colombianas para enfrentar narcotraficantes e rebeldes marxistas locais, mas eles já causam atrito na América Latina num momento em que o governo de Barack Obama quer melhores relações com a região.

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Os aliados Colômbia e Estados Unidos estão próximos de um acordo que dê acesso aos militares norte-americanos a pelo menos sete bases, como parte de uma campanha conjunta contra os traficantes de cocaína e os guerrilheiros envolvidos na mais antiga guerra civil latino-americana.

Governos esquerdistas da região, capitaneados pelo venezuelano Hugo Chávez, qualificam o plano como uma agressão "imperialista," elevando as tensões e ameaçando o comércio no norte dos Andes.

O presidente colombiano, Álvaro Uribe, já tem relações difíceis com os líderes esquerdistas da região, e a eventual ampliação da presença militar norte-americana gerou uma nova crise.

Como parte dessa queda-de-braço, Chávez, porta-estandarte do sentimento antiamericano na América Latina, chegou a retirar seu embaixador de Bogotá, interrompeu o fornecimento de combustíveis subsidiados ao país vizinho e buscou formas de reduzir as importações vindas da Colômbia.

Na sexta-feira, os líderes sul-americanos se reúnem para uma cúpula na Argentina que terá como tema central a cooperação militar EUA-Colômbia, e tanto Chávez quanto Uribe irão apresentar seus argumentos.

O acordo --que dá autorização para que os EUA usem três bases aéreas, duas instalações navais, dois quartéis do Exército e outras instalações colombianas "se houver concordância mútua"-- permitirá que Washington tenha acesso tanto ao Pacífico quanto ao Caribe.

Isso compensa parcialmente a perda da base aérea equatoriana de Manta, cuja concessão não foi renovada pelo presidente do Equador, Rafael Correa. Os EUA já usam a ilha caribenha de Aruba, uma possessão holandesa, para monitorar as rotas da cocaína ao longo da costa norte da Colômbia e da fronteira com a Venezuela.

"A distância relativamente pequena entre Manta e várias bases na Colômbia significa que os EUA manterão um alcance operacional muito semelhante," disse Anna Gilmour, analista-sênior de Américas na entidade Jane's Country Risk. "O principal significado da mudança de base é seu impacto político."

Desde 2000, a Colômbia já recebeu cerca de 6 bilhões de dólares em ajuda dos EUA, principalmente na área militar, como parte de um pacote que ajudou Uribe a enfraquecer os cartéis de drogas e obrigar a guerrilha Farc a abrir mão de territórios que antes controlava.

Autoridades dizem que o novo acordo não dará aos EUA capacidades ofensivas, nem ampliará seu contingente além dos 800 militares e 600 funcionários civis hoje autorizados. Atualmente, Washington mantém cerca de 260 militares na Colômbia.

Os EUA têm uma presença atual importante em seis países latino-americanos.

A expansão da sua presença na Colômbia é parte de uma estratégia mais ampla de Washington no sentido de abandonar instalações grandes e permanentes, como era típico da Guerra Fria, para ocupar instalações menores, cedidas por países aliados próximos a locais turbulentos do mundo.

RISCOS POLÍTICOS

As operações dos EUA na Colômbia até agora são do tipo que deixa "poucas pegadas" --concentrando-se em logística, transporte, treinamento e alguma assistência em termos de inteligência para ajudar os militares locais.

A Colômbia diz que, ampliando o acesso aos norte-americanos, suas forças poderão atacar várias rotas do tráfico de drogas. Mas a base de Manta ficava localizada estrategicamente à beira do Pacífico, e alguns analistas questionam a utilidade de algumas das novas bases para o combate ao narcotráfico.

A base de Palanquero, por exemplo, onde as autoridades dos EUA planejam um investimento de 46 milhões de dólares em reformas, fica no centro do país. A de Apiay está no coração de um antigo território rebelde nas planícies do leste.

"Três cadeias montanhosas dos Andes ficam entre Palanquero e o Pacífico. Como isso irá contemplar a interdição (termo que se refere ao combate ao tráfico)?," escreveu Adam Isacson, do Centro para a Política Internacional, de Washington, que monitora iniciativas dos EUA na Colômbia.

Críticos apontam equívocos de Bogotá e Washington a respeito da proposta. Ela enervou muita gente na região depois de Obama ter ganhado pontos durante a Cúpula das Américas, neste ano em Trinidad, quando prometeu um recomeço nas relações dos EUA com a América Latina.

As suspeitas a respeito do envolvimento militar dos EUA são arraigadas. Quando as tropas colombianas fizeram um bombardeio contra um acampamento das Farc no Equador, autoridades equatorianas de inteligência disseram acreditar que a base de Manta teria sido usada para fornecer informações para o bombardeio. As autoridades dos EUA negaram as acusações.

"As pessoas na região simplesmente não querem mais bases dos Estados Unidos," disse Myles Frechette, ex-embaixador dos EUA na Colômbia. "As preocupações a respeito dos Estados Unidos ainda estão aí. Chávez não deixará isso morrer."

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