Análise: Verbas, vice e crise contribuíram para derrota de McCain

O candidato republicano derrotado nas eleições americanas, John McCain, parecia ter todos os ingredientes para conseguir uma vitória. Todos nos Estados Unidos sabiam de sua experiência política, seu heroísmo no Vietnã e sua habilidade em política internacional e para conseguir aliados no Congresso.

BBC Brasil |

O adversário de McCain, Barack Obama, era inexperiente e, pelo menos inicialmente, desconhecido.

Mas McCain teve vários problemas na campanha. O primeiro e maior deles foi conseguir dinheiro para competir com os US$ 650 milhões arrecadados por Obama.

Por ter aceitado verbas federais (que Obama recusou), o republicano limitou o gasto geral de sua campanha para o máximo de US$ 85 milhões.

O Comitê Nacional Republicano e outros grupos pró-McCain gastaram muito mais do que isso, mas o republicano nunca representou um desafio sério à habilidade de Obama de dominar os canais de televisão - mesmo nos Estados que eram tradicionalmente republicanos.

E, para piorar, Obama tinha o dinheiro necessário para obrigar McCain a lutar por Estados que deveria ter como garantidos, com a verba reduzida que o republicano tinha destinado para Estados onde já esperava competição.

Bush
Outro grande problema para John McCain foi tentar se distanciar de um dos presidentes mais impopulares da história americana.

Como a maioria dos republicanos mais leais, McCain apoiou o presidente George W. Bush, e Obama nunca deixou ninguém esquecer esse fato.

McCain afirmou que seria um presidente muito diferente, sem rejeitar explicitamente a Presidência de Bush. Em vez de fazer isso, tentou se posicionar como um dissidente que já tinha feito as coisas de forma diferente no passado.

Mas republicanos conservadores sabiam muito bem que "dissidente" também significava ficar contra eles em questões como imigração e mudanças no financiamento de campanhas.

Os republicanos de direita, evangélicos, que elegeram Bush, não gostavam de McCain. Isso forçou o candidato a escolher um candidato a vice que os acalmasse.

Mas, desde o começo, a governadora do Alasca, Sarah Palin, foi uma grande aposta.

Escolher alguém sem experiência nacional ou internacional como companheira de chapa levou a questionamentos sobre a capacidade de julgamento de McCain e prejudicou seu principal argumento contra Obama.

O fator Palin
Nas poucas entrevistas que deu, Sarah Palin deixou claro que não entendia completamente questões de política internacional, com a mesma profundidade que qualquer um de seus adversários.

Mas também existiam outros problemas. Palin foi alvo de uma investigação no Alasca que determinou que ela cometeu abuso de poder. E então surgiram questionamentos quanto às suas despesas oficiais e suas alegações de que tentou acabar com projetos de construção federais que desperdiçavam dinheiro.

As coisas pioraram quando foi revelada a informação de que os republicanos gastaram US$ 150 mil em roupas e acessórios para Palin.

À medida que o tempo passava, o desempenho da vice de McCain nas pesquisas de opinião despencava. Ela pode ter ajudado a acalmar o Partido Republicano, mas McCain não conseguiu convencer mais eleitores, principalmente com as opiniões rigorosas de Palin sobre aborto e meio ambiente.

E a candidata a vice também conseguiu afastar até mesmo outros republicanos. Ex-secretário de Estado, Colin Powell citou Sarah Palin como um dos motivos por que decidiu apoiar Obama.

Ataques pessoais
Outro problema apontado por Powell foram os ataques dos republicanos contra Obama durante a campanha.

Apesar de McCain ter apenas 10% a mais de propaganda puramente negativa do que Obama, segundo grupos de monitoramento da imprensa, os ataques eram mais pessoais, acusando Obama de ter um relacionamento próximo com um "terrorista doméstico", por exemplo.

Segundo as pesquisas, isso afastou os eleitores independentes, e McCain foi obrigado a mudar o tom.

Na verdade, o candidato republicano nunca encontrou o tom certo. Ele passou de herói de guerra a voz da experiência, a dissidente, a pessoa que iria cortar os impostos, mas nunca conseguiu pesquisas favoráveis.

A equipe de campanha esperava que os três debates presidenciais finalmente mostrassem que McCain era o melhor.

McCain tentou enfrentar Obama, mas nunca conseguiu abalar o candidato democrata. Em alguns momentos, o republicano parecia até estar tentando manter sua ira sob controle, o que gerou mais cobertura negativa ainda.

Economia
Quando a crise de crédito ganhou força nos Estados Unidos e a economia do pais desacelerou, tudo parecia mais um argumento contra a era republicana de desregulamentação econômica.

As declarações anteriores de McCain, afirmando que a base da economia era forte, voltaram para assombrar o candidato. Seu plano fiscal - que parecia favorecer os ricos - não causou impacto entre as pessoas que enfrentavam a perda de emprego.

A repentina suspensão de sua campanha para voltar a Washington e "consertar o problema" não surtiu efeito.

No final, McCain projetou a imagem de um homem do passado dos Estados Unidos, que passou por muita coisa e serviu bem ao seu país.

Mas em uma nação decepcionada, profundamente desiludida com os republicanos, ele não pôde enfrentar o apelo de um adversário mais jovem e sua mensagem de mudança.

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