Análise: Troca de acusações esconde causa de conflito no Cáucaso

Os combates podem ter terminado na Ossétia do Sul, mas a guerra de palavras entre a Rússia e a Geórgia não dá sinal de que esteja acabando. Enquanto os dois lados se acusam pelo início da violência, a verdade sobre o que realmente aconteceu parece ficar mais distante.

BBC Brasil |

Os líderes internacionais que visitaram a Geórgia na última semana para oferecer apoio ao país no impasse com a Rússia parecem relutantes em entrar no debate sobre as causas do conflito.

"Não é hora de alocar culpas", disse um porta-voz da chanceler alemã, Angela Merkel, que esteve em Tbilisi no domingo.

Mas grupos de direitos humanos e especialistas na solução de conflitos argumentam que uma investigação das circunstâncias e dos eventos envolvidos na Ossétia do Sul se faz urgente.

Em uma região onde feudos antigos influenciam acontecimentos atuais, meias verdades de um conflito rapidamente se tornam os mitos que alimentam o próximo ciclo de violência.

7 de agosto
As causas imediatas do conflito têm origem nos eventos do dia 7 de agosto. Após dias trocando fogo pesado com combatentes separatistas da Ossétia do Sul, o lado georgiano declarou um cessar-fogo unilateral.

"Não queremos devolver fogo", disse o presidente Mikhail Saakashvili em um pronunciamento em TV nacional. "Por favor não testem a paciência do Estado da Geórgia. Vamos dar uma chance à paz e ao diálogo."
Cinco horas e meia depois, a paciência da Geórgia acabou. O Ministério da Defesa anunciou que havia enviado tropas à Ossétia do Sul "para restaurar a ordem constitucional em toda a região".

Intensos combates eclodiram na região da capital ossetiana, Tskhinvali, e surgiram relatos de que aviões de guerra georgianos estavam bombardeando a cidade e seus arredores.

Os georgianos disseram que haviam sido forçados a retaliar depois de repetidos ataques dos rebeldes ossetianos.

O primeiro-ministro Lado Gurgenidze, no dia 8 de agosto, também citou informações de uma incursão "de chamados combatentes voluntários" da Ossétia do Norte pelo túnel Roki, que liga as duas Ossétias (a Ossétia do Sul fica do lado georgiano e a do Norte, na Rússia).

Em entrevista coletiva seis dias depois, o premiê reforçou a acusação ao se referir a "uma grande coluna de 150 unidades" que estaria cruzando o túnel durante a noite. Foi isso, segundo Gurgenidze, que provocou a decisão de enviar tropas.

Até então havia relatos independentes dessa incursão, embora também houvesse informações não confirmadas de exercícios militares russos na área do túnel nos dias que antecederam os combates. Esta é apenas uma das diversas questões sobre essa guerra que precisam ser respondidas.

Em uma questão de horas, a Rússia havia lançado a sua própria operação de "aplicação da paz" em apoio, segundo Moscou, a civis e soldados russos que atuavam na região como força de paz.

Os primeiros bombardeios aéreos na cidade georgiana de Gori foram registrados na manhã de 8 de agosto, e nos dias que se seguiram, comboios de tanques russos e veículos blindados passaram pelo túnel Roki para a Ossétia do Sul e outras partes da Geórgia.

Escalada repetina
Mesmo sem saber se cada lado estava deliberadamente planejando entrar em guerra ou apenas reagindo de maneira exagerada às circunstâncias, está claro que tanto a Rússia como a Geórgia estavam preparadas para uma escalada repentina da violência.

O ataque georgiano a Tskhinvali e a resposta russa a ele foram rápidos e brutais.

Também não está claro quantos civis morreram no bombardeio de Tskhinvali ou quem queimou dezenas de casas georgianas na zona de conflito.

Tampouco se sabe o que está acontecendo na cidade de Gori, de onde, há dias, saem relatos de saques e violência cometidos supostamente por paramilitares da Ossétia do Sul.

O que está evidente, entretanto, é o fracasso da diplomacia e do bom senso de todos os lados nos meses que antecederam o conflito, precedido de meses de tensões crescentes e bem-documentadas entre Geórgia e Rússia.

Moscou estava furiosa com o reconhecimento de Kosovo, em fevereiro, e a promessa da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte, a aliança de defesa ocidental), em março, de que a Geórgia um dia se tornaria membro da aliança.

Os russos responderam aumentando o seu apoio às duas regiões separatistas da Ossétia do Sul e da Abecásia.

Episódios de violência freqüentemente irrompem durante o verão nas zonas de conflito da Geórgia. É o resultado, diz a população local, de uma combinação de clima quente, nervos sensíveis e simplesmente um excesso de armas apontando umas para as outras nos termos de tréguas quase sempre frágeis.

É uma tragédia para a população do Cáucaso que neste verão nenhum lado tenha recuado.

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