Análise: Tensões culturais entre chineses han é subestimada

Estrangeiros e os próprios chineses geralmente enxergam a sua população como uma vasta maioria de etnia han, com algumas minorias exóticas esparsas que vivem ao longo da fronteira do país. Essa visão subestima a tremenda diversidade cultura, geográfica e linguística â¿¿ em especial as importantes diferenças culturais dentro da população han.

BBC Brasil |

Mais importante, eventos recentes sugerem que a China pode estar mais insegura em relação à sua integração nacional. O inesperado cancelamento da participação do presidente Hu Jintao na reunião do G8 na Itália para lidar com os problemas étnicos em Xinjiang é uma indicação da seriedade deste tema para a China. A China está assistindo a um ressurgimento de etnias e culturas locais, mais notoriamente entre os povos do sul, como os cantoneses e hakka, que são agora classificados como han. Por séculos, a China manteve unida uma vasta nação multicultural e multiétnica apesar de períodos alternados de centralização política e fragmentação. Mas abismos culturais e linguísticos podem piorar em uma China enfraquecida por lutas internas, desaceleração econômica, crescimento desigual e brigas por sucessão política. A briga inicial entre trabalhadores da fábrica de brinquedos na província de Guangdong, que deixou pelo menos dois uigures mortos no dia 25 de junho, causou o tumulto em Xinjiang no dia 5 de julho, que terminou com 156 mortos, milhares de feridos e 1,5 mil presos, com violência contínua se espalhando pela região. As celebrações do Dia Nacional marcadas para outubro de 2009 pretendem destacar 60 anos de liderança "harmônica" do Partido Comunista da China, e, como nas Olimpíadas de 2008, o seu enorme sucesso. Os tumultos são uma ameaça para essas celebrações.

Oficialmente, a China é composta por 56 nacionalidades: uma nacionalidade majoritária â¿ os han â¿ e 55 grupos minoritários. O censo de 2000 revelou que as minorias formam uma população de quase 104 milhões de pessoas â¿ ou cerca de 9% da população total do país. Os povos identificados como han formam 91% da população, de Pequim, no norte, ao Cantão, no sul, e incluem outros grupos, como Hakka, Fujian, cantonês, entre outros. Os han são unidos por uma história, cultura e língua escrita comum; diferenças entre os grupos em língua falada, roupas, alimentação e costumes são vistos como menores e superficiais. Um programa patrocinado pelo Estado presta assistência às culturas minoritárias oficiais e promove o seu desenvolvimento econômico (com resultados ambíguos).

O reconhecimento das minorias, no entanto, também ajudaram o projeto de longo prazo dos comunistas de forjar uma nação chinesa unida ao solidificar o reconhecimento dos han como a maioria. Enfatizar a diferença entre os han e as minorias ajudaram a tirar a ênfase das diferenças dentro da própria comunidade han. Os comunistas incorporaram a ideia de unidade han em uma ideologia marxista de progresso, com os han na vanguarda do desenvolvimento e da civilização. Quanto mais "atrasadas" e "primitivas" eram as minorias, mais "avançadas" e "civilizadas" pareciam os han. As minorias que não apoiam as políticas de desenvolvimento são vistas como "retrógradas" e antimodernidade, freando o país e a si mesmo. Os han supostamente homogêneos falam oito línguas distintas. Mesmo estes subgrupos mostram diferenças linguísticas e culturais marcantes. A política chinesa em relação às minorias envolve reconhecimento oficial e autonomia limitada. Apesar de serem apenas 9% da população, as minorias estão concentradas em áreas ricas em recursos, ao longo de quase 60% do território chinês em lugares que concentram mais de 90% da população. Xinjiang ocupa um sexto do território chinês.

Por outro lado, "ser étnico" está se tornando popular na China atualmente. O fondue mongol, o macarrão muçulmano e o churrasco coreano proliferam em todas as cidades, enquanto roupas, artesanatos e estilos culturais de minorias fazem sucesso. O surgimento do "étnico chic" é um contraste forte com as políticas antiétnicas de homogeneização do final dos anos 50, da Revolução cultural dos anos 60, da "poluição espiritual" do final dos anos 80 e das atuais revoltas no oeste do país. Enquanto o separatismo étnico nunca será uma ameaça séria para a forte China, uma país enfraquecido por lutas internas, inflação e crescimento desigual, poderia se tornar ainda mais dividido em termos culturais e linguísticos.

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