O Partido Comunista chinês terá que passar por severas reformas democráticas para permanecer no poder por mais 60 anos, acreditam especialistas ouvidos pela BBC Brasil.

"Somente com um milagre" o partido conseguiria conduzir o país com a mesma mão de ferro nas próximas décadas, tendo em vista que a população é cada vez mais rica, educada e exposta à cultura ocidental, segundo o historiador especializado em China, Xu Guoqi, da Universidade de Hong Kong.

"Para permanecer no poder, o partido precisa garantir crescimento econômico, estabilidade social e uma política externa em sintonia com os interesses nacionais. Atingir tudo isso sem reformas políticas é uma missão impossível", diz Xu.

Para Vivian Jing Zhan, da faculdade de Administração Pública da Universidade Chinesa de Hong Kong, "o PC chinês vai ter que alargar a base e incorporar as opiniões do público em geral no processo legislativo ao invés de se fiar pela liderança da elite".

Já outros analistas não acreditam que reformas sejam suficientes para manter o PC no poder.

"Eu não vejo como o partido pode durar outros 60 anos. Décadas de desenvolvimento econômico e engenharia social deixaram o povo chinês atento, positivo e confiante. Agora o processo de mudança adquiriu momento e não vai mais parar", aposta Gordon Chang, autor do livro The Coming Collapse of China  (O Vindouro Colapso da China, em tradução livre).

Reformas democráticas

Ciente de que a prosperidade econômica demanda maior abertura política, o PC estuda aumentar o nível de democracia interno e vem debatendo a possibilidade de introduzir o voto direto para os 75 milhões de membros do partido na eleição de lideranças nacionais.

A ideia, no entanto, não significa um passo concreto em direção ao modelo ocidental de democracia, pois apesar de os 75 milhões de membros do partido superarem em número a população do Reino Unido, eles correspondem a apenas 5,7% dos 1,3 bilhão de chineses.

Há cerca de duas semanas o presidente Hu Jintao voltou a defender em um discurso que o país precisa se manter fiel ao "socialismo com características chinesas" e rejeitar as pressões para "copiar o modelo ou padrão ocidental".

"Eles estão cogitando eleições internas no partido exatamente porque o PC não está disposto a ceder o monopólio de poder que tem sobre a China", afirma o cientista político Joseph Cheng, da City University de Hong Kong.

Legitimidade

O partido comunista ascendeu ao poder em 1949 depois que as forças populares lideradas por Mao Tsé-Tung expulsaram os soldados nacionalistas do Kuomintang, comandados pelo generalíssimo Chiang Kai-shek, para a ilha de Taiwan.

Sob o poder de Mao, entre 1949 e 1976 a China experimentou o fracasso do socialismo utópico com o "Grande Salto Adiante" e o caos da "Revolução Cultural", até que, em 1978, Deng Xiaoping deu início às reformas econômicas que resultaram no progresso testemunhado atualmente.

"A legitimidade do partido hoje vem da melhora na situação de vida dos chineses", resume Joseph Chang. São os números econômicos que motivam a obediência do povo à liderança comunista, diz ele.

Atualmente a China é a terceira maior economia do mundo. Desde 1949 o Produto Interno Bruto cresceu 77 vezes, com um ritmo médio de expansão de 8,1% ao ano.

A renda per capita já aumentou 32,4 vezes, supera US$ 3,000 ao ano, e segue crescendo na média 6,5% anualmente.

O comércio internacional progrediu de US$ 1,13 bilhão em 1950 para US$ 2,5 trilhões em 2008 e o país acumula mais de US$ 2 trilhões de dólares em reservas.

"Sem as reformas econômicas o partido teria deixado de existir", afirma Xu Guoqi.

"Essa é a principal diferença em relação aos outros partidos comunistas do mundo. Os chineses perceberam a tempo a importância do desenvolvimento econômico para justificar a legitimidade" resume o historiador.

Repetindo o que foi feito na economia, "quanto mais cedo o partido adotar reformas políticas, melhor será pra ele", conclui Xu Guoqi.

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