Análise: Presidente russo expõe princípios de nova política externa

Na seqüência do conflito com a Geórgia, o presidente russo Dmitry Medvedev enunciou cinco novos princípios que, segundo ele, guiarão a política externa russa a partir de agora.

BBC Brasil |

As novas regras de Moscou não fazem parte de um projeto de uma nova Guerra Fria, um conflito econômico e ideológico global.

Desta vez, a política tem muito mais a ver com a defesa de interesses nacionais.

Volta ao século 19?

Os novos princípios anunciados por Medvedev, com referências a "interesses privilegiados" e à proteção de cidadãos russos, provavelmente soariam óbvios a líderes russos do século 19, mas soariam um tanto leves para Stalin e seus sucessores, que planejavam levar o comunismo soviético para o resto do globo.

De alguma forma, estamos voltando dois séculos atrás, com a Rússia nacionalista olhando com atenção para seus próprios interesses, mas também aberta para a cooperação com o mundo exterior em assuntos em que quer ser mais flexível.

Os princípios do presidente Medvedev, por exemplo, não excluem necessariamente o acerto russo para prosseguir com uma diplomacia firme contra o Irã. Contratos de energia também não estão necessariamente ameaçados.

Leia abaixo os princípios da nova política externa russa anunciados pelo presidente Medvedev em entrevista aos três principais canais de televisão russos.

1 - Legislação internacional


"A Rússia reconhece a primazia dos princípios básicos da legislação internacional, que definem as relações entre nações civilizadas. No marco destes princípios, deste conceito de legislação internacional, é que desenvolveremos nossas relações com os outros Estados."

2 - Mundo multipolar


"O mundo deve ser multipolar. A dominação por um só país é inaceitável. Não podemos aceitar uma ordem mundial em que as decisões são tomadas por apenas um país, mesmo que seja um país como os Estados Unidos. Este tipo de mundo é instável e marcado por conflitos."

3 - Não isolamento


"A Rússia não quer conflitos com nenhum país. A Rússia não tem intenções de se isolar. Nós desenvolveremos, até o possível, relações amistosas com a Europa e os Estados Unidos, assim como com outros países do mundo."

4 - Proteção aos cidadãos

"Nossa prioridade inquestionável é a proteção da vida e da dignidade de nossos cidadãos, onde quer que eles estejam. Nós guiaremos assim nossa política externa. Nós também iremos proteger os interesses de nossa comunidade comercial no exterior. Deve ser claro para todos que quem agir de modo agressivo, terá a resposta."

5 - Esfera de influência

"A Rússia, assim como outros países do mundo, tem interesses privilegiados em certas regiões. Nestas regiões, há países com quem nós temos, tradicionalmente, relações cordiais e históricas. Nós trabalharemos muito atentamente nestas regiões e desenvolveremos relações de amizade com estes Estados."
Quando perguntado se estas regiões prioritárias são aquelas que fazem fronteira com a Rússia, Medvedev respondeu: "Certamente, essas regiões são prioritárias, mas não só elas."

As conseqüências

Quais seriam então as conseqüências destes princípios? Veja a análise na seqüência em que foram expostos por Medvedev.

Primazia da legislação internacional


Este princípio soa encorajador. Mas a Rússia também assinou em abril deste ano a resolução 1.808 do Conselho de Segurança, que reafirmou o compromisso dos membros com a independência e integridade territorial da Geórgia. Depois disso, abandonou a posição.

O país argumenta que o ataque da Geórgia contra a Ossétia do Sul no início de agosto invalidou seu compromisso e exigiu que a defesa de seus cidadãos na região. Mas a Rússia não pode proclamar ao mesmo tempo sua fé na legislação internacional e na ação unilateral.

Este princípio deve ser enxergado como um tanto vago.

O mundo é multipolar


Isso significa que a Rússia não aceitará a primazia dos Estados Unidos (ou de uma combinação dos Estados Unidos com seus aliados) na determinação da política mundial. O governo russo vai exigir que seus próprios interesses sejam levados em conta.

A Rússia não busca o confronto

Novamente, isso soa reconfortante, mas é baseado no princípio de que as necessidades russas são prioridade. Se o mundo concorda com as demandas russas, então serão amigos. Mas se não o faz... aí mora o perigo.

Proteção a seus cidadãos

O ponto-chave deste princípio é a frase "onde quer que eles estejam". Esta foi a justificativa para a Rússia entrar em guerra na Ossétia do Sul e contém o potencial para futuras intervenções, como por exemplo sobre a Criméia, na Ucrânia, habitada majoritariamente por uma população de origem russa. Se a Ucrânia entrar na Otan, a Rússia vai invocar a proteção aos seus cidadãos lá?

Interesses privilegiados

Neste princípio, Medvedev chegou ao coração do problema. A Rússia reclama sua esfera de influência especialmente, mas não só, sobre os Estados fronteiriços. Há um potencial de novos conflitos caso estes interesses sejam ignorados.

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