Apesar da distância ideológica, os dois principais candidatos à presidência dos Estados Unidos concordam em um ponto: as críticas à herança que George W. Bush vai deixar ao fim de oito anos de mandato.

Tanto para o republicano John McCain, como para o democrata Barack Obama, um dos principais problemas é a crise econômica e o déficit que o presidente deixa nas contas públicas.

Quando Bush assumiu o poder, em 2001, herdou um superávit de US$ 651 bilhões, mas vai deixar o orçamento com déficit recorde de US$ 438 bilhões, sem levar em consideração o pacote de estímulo econômico no valor de US$ 700 bilhões.

Mas não é só o déficit que traz preocupação. Qualquer um que ocupe o cargo vai ter que buscar uma maneira de estimular o crescimento econômico e devolver o otimismo aos americanos, que deixaram de consumir preocupados com a insegurança trabalhista e o medo de que as coisas possam piorar.

As estatísticas não mentem. Segundo cifras oficiais, o gasto dos consumidores, que nos Estados Unidos representa mais de dois terços do PIB, caiu 3,1% no último trimestre - a primeira queda em 17 anos e a maior em 28 anos. A queda de 6,4% no gasto de consumo com bens não-duráveis foi a maior desde 1950.

Duas guerras sem fim
À situação econômica se unem várias tarefas pendentes que Bush deixa sem resolver. Uma delas é o Iraque e o futuro das tropas americanas no país.

A equipe de Bush negocia um acordo com Bagdá e garante que tudo avança com fluidez, mas é pouco provável que ele seja completado antes do presidente deixar a Casa Branca.

Mas o Iraque não é a única frente de combate. O Afeganistão permanece uma ferida aberta que não cura, e nenhum dos candidatos descarta o envio de mais tropas ao país para controlar a situação.

O problema é que o exército americano atua no limite de sua capacidade, e seus aliados da OTAN não parecem dispostos a enviar mais soldados para a região, apesar do ressurgimento do Talebã e da consolidação de organizações relacionadas à Al-Qaeda.

Além do Iraque
Além disso, a longo prazo, a maior tarefa que o presidente americano vai deixar a seu sucessor será restabelecer o prestígio do país junto aos aliados.

O gosto ruim deixado pela administração Bush com a guerra do Iraque pode apresentar obstáculos ao modo como Washington vai lidar com a Síria e o Irã.

O processo de paz no Oriente Médio está estancado e para culminar, as relações com a Rússia se deterioraram, apesar de isso não ter ligação direta com Bush.

Em relação à América Latina, o presidente Bush garante que as relações melhoraram, mas a realidade é que muitas pontes de comunicação foram rompidas, e a tensão com a Venezuela provocou a retirada de embaixadores. O mesmo ocorreu com a Bolívia.

Além disso, o presidente deixou pendentes dois tratados de Livre Comércio com a Colômbia e o Panamá, que nunca conseguiu aprovar no Congresso.

Ao chegar à Casa Branca, o futuro presidente terá que lidar com essas promessas não cumpridas, incluindo a reforma migratória.

Guantánamo
Mas a "pior herança de Bush", segundo a organização de defesa dos direitos humanos Human Rights Watch, é a prisão de Guantánamo, em Cuba.

"Por oito anos a administração Bush afirmou que promovia a democracia e liberdade, mas sua política abusiva diminuiu a autoridade moral dos Estados Unidos e impôs um exemplo negativo", disse Kenneth Roth, diretor da HRW.

"A prioridade do novo governo deve ser restaurar a autoridade moral deste país, não só aqui como no exterior", acrescentou.

Além de fechar Guantánamo, onde centenas de pessoas foram detidas por anos sem acusação formal, os grupos de direitos humanos pedem que sejam rechaçadas as práticas instauradas durante o governo Bush, em relação à tortura e às "prisões secretas" efetuadas pela Agência de Inteligência Americana, a CIA.

Diante deste panorama, muitos afirmam que o legado mais positivo a ser deixado pelo presidente para seu sucessor será, precisamente, sua ausência.

Bush tem hoje 23% de aprovação, o nível mais baixo da história do instituto de pesquisa Gallup e um ponto abaixo do que tinha Richard Nixon, quando renunciou à presidência por conta do escândalo de Watergate.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.