Análise: Islândia é primeira vítima real da crise

A primeira vítima real da crise financeira internacional é a Islândia. Os problemas no país foram causados por dois fatores distintos, um deles perfeitamente previsível.

BBC Brasil |

O fator previsível está ligado às medidas do Banco Central islandês. Nos últimos anos, a Islândia tem seguido uma política de metas inflacionárias, assim como o Brasil.

Isso significa que o Banco Central aumenta as taxas de juros se o índice de inflação está acima da meta e reduz as taxas se a inflação está abaixo.

Essa política, baseada em teorias econômicas e utilizada por outros países, foi desastrosa para a Islândia.

Ilusão de riqueza
Por todo o período de política de metas inflacionárias, a inflação estava acima da taxa estabelecida pelas metas do governo e, como resultado, as taxas de juros ultrapassavam 15%.

Em uma economia pequena como a da Islândia, taxas de juros altas encorajam empresas domésticas e até mesmo famílias a pegar empréstimos em moeda estrangeira e também atraem especuladores.

Isso provou grandes fluxos de dinheiro, em moeda estrangeira, o que causou grandes aumentos nas taxas de câmbio e deu aos islandeses a ilusão de riqueza.

Os especuladores e pessoas que pegavam empréstimos conseguiam lucros com a diferença entre a taxa de juros na Islândia e em outros países.

Esses efeitos encorajaram o crescimento econômico e a inflação, levando o Banco Central a aumentar ainda mais a taxa de juros.

O resultado final foi uma bolha causada pela interação entre taxas de juros domésticas e fluxos de moeda estrangeira.

A taxa de câmbio estava cada vez mais distante dos fundamentos da economia, com uma inevitável e rápida depreciação da moeda islandesa.

Isso deveria ter ficado claro para o Banco Central, que desperdiçou várias boas oportunidades de evitar esse processo e conseguir mais reservas.

Independência
Além destes fatores, também é preciso levar em conta a estrutura de governança do Banco Central da Islândia, que não tem um, mas três diretores. Um ou mais desses diretores geralmente é um ex-político.

Por isso, a governança do Banco Central do país sempre foi vista como muito próxima do governo central, o que levanta dúvidas sobre sua independência.

Essa estrutura leva a conseqüências que são especialmente visíveis em períodos de crise financeira. Ao escolher os diretores de acordo com suas bases políticas ao invés de conhecimentos financeiros e econômicos, o Banco Central pode ser visto como mal preparado para lidar com uma economia em crise.

O segundo fator na implosão da economia islandesa foi o tamanho de seu setor bancário.

Antes da crise, os bancos da Islândia tinham ativos fora do país em um valor aproximado de dez vezes o PIB islandês, com dívidas que eram equivalentes.

Em circunstâncias normais, isso não é causa de preocupação, a partir do momento em que os bancos são dirigidos com cautela.

Em uma crise, como a que está ocorrendo atualmente, a força de um balanço patrimonial de um banco não tem grandes conseqüências.

O que importa é a garantia explícita ou implícita fornecida pelo Estado aos bancos para apoiar seus ativos e dar liquidez.

Então, a relação entre o tamanho do Estado e o tamanho dos bancos se transforma em um fator crucial.

O tamanho relativo do sistema bancário islandês significa que o governo não está em posição de garantir os bancos, diferente de todos os outros países europeus.

Esse efeito aumentou ainda mais e antecipou o colapso causado pelo fato de o Banco Central não ter conseguido aumentar suas reservas em moeda estrangeira.

Tragédia
Os eventos desta semana foram causados pela combinação desses dois fatores: política monetária inadequada e um sistema bancário maior do que o normal.

Durante este ano, a moeda islandesa está se desvalorizando porque os especuladores estão fugindo.

Isso provoca dúvidas a respeito da economia islandesa e também a respeito de seu sistema bancário.

Mas a tragédia real na crise é o impacto nas famílias islandesas, que enfrentam um aumento de 50% nos pagamentos de empréstimos e ainda uma inflação que pode chegar a 30% ou mais em 2008, com salários congelados e demissões.

Felizmente, o potencial macroeconômico em longo prazo é bom. A Islândia tem muitos recursos naturais ainda não explorados e uma força de trabalho qualificada.

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