Análise: Deposição em Honduras pode ter sido ação mal calculada

A retirada do poder do presidente de Honduras, Manuel Zelaya, pode tê-lo transformado inesperadamente em um herói com amigos poderosos. Zelaya foi detido em Honduras no último domingo, data marcada para um plebiscito sobre a ideia de uma consulta sobre a possibilidade de uma reforma constitucional.

BBC Brasil |

Depois de ter que abandonar a residência oficial em Tegucigalpa e ser colocado em avião que o levaria para o exílio forçado na Costa Rica, começaram as manifestações de outros presidentes como Barack Obama, dos Estados Unidos, e Hugo Chávez, da Venezuela.

Nos últimos dias, antes de ser afastado no último domingo, Zelaya estava isolado. A Suprema Corte acusou Zelaya duas vezes de agir ilegalmente e o procurador-geral de Honduras afirmou que ele deveria renunciar à Presidência.

Zelaya também tinha demitido o chefe do Exército, general Romeo Vasquez, e os chefes da Marinha e Força Área também tinham renunciado aos seus cargos.

Pouco antes da madrugada de domingo, ele foi acordado por soldados mascarados que entraram em seu quarto e o então presidente foi levado para um aeroporto militar, onde, ainda de pijama, embarcou em um avião que o levou à Costa Rica.

Nenhum país do mundo reconheceu o novo governo hondurenho.

"O presidente Zelaya foi eleito democraticamente. Ele não completou seu mandato", afirmou o presidente americano Barack Obama.

"Este é um golpe contra todos nós", disse o líder venezuelano Hugo Chávez, que acrescentou que fará tudo o que puder para que Zelaya volte ao poder.

Na manhã da segunda-feira o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o Brasil "não reconhece" o novo governo de Honduras e o Itamaraty suspendeu a volta do embaixador brasileiro ao país.

Cidadão comum
O presidente deposto falou que voltará a Honduras na quinta-feira. Mas, se ele espera uma recepção de herói, poderá ficar decepcionado.

O novo governo de Honduras afirmou que Zelaya agora é um cidadão comum e deve ser preso se voltar ao país.

Mas, os últimos eventos em Tegucigalpa, com centenas de manifestantes gritando o nome do presidente deposto, provaram que ele ainda tem partidários.

"Ele é o presidente de Honduras, democraticamente eleito. Ele foi sequestrado por criminosos", afirmou Paulina, professora primária, enquanto insultava os soldados que ocupam o palácio presidencial.

Entretanto, nas semanas antes de deixar o país, a popularidade de Zelaya estava em queda. Uma pesquisa a colocou em um índice de cerca de 30%.

"Nós vimos que isto (a deposição) poderia acontecer há seis meses", disse Miguel, um advogado de Tegucigalpa, enquanto testemunhava manifestantes construindo uma barricada de pneus em chamas no centro da capital. "Por alguma razão, Zelaya se transformou em um radical", acrescentou.

Planejado
Talvez, buscando inspiração no presidente Chávez na Venezuela, Zelaya, que afirmou que a democracia hondurenha favorecia a elite rica do país, começou a voltar sua atenção para Constituição.

Atualmente esta Constituição permite que presidentes tenham apenas um mandato no cargo, de quatro anos. O mandato de Zelaya acabaria em janeiro de 2010.

Seus esforços para mudar a situação pareceriam relativamente pequenos. No domingo passado ele tentava realizar o que seria um referendo para decidir se outro referendo seria realizado para decidir a instauração de uma Assembleia Constituinte.

Mas os inimigos de Zelaya pareciam querer paralisar este processo logo no início. E eles contavam com o apoio de instituições poderosas como a Suprema Corte, o Congresso e o Exército.

O afastamento de Zelaya foi planejado e orquestrado com muita habilidade. Mas os oponentes do presidente podem ter calculado errado o momento de agir.

Zelaya foi transformado em um símbolo da longa e infeliz luta da América Central contra a ditadura militar.

E a questão permanece se, supondo que esta era a intenção de Zelaya, ele realmente poderia ter alterado a Constituição para estender seu mandato.

Mesmo os líderes mais populares, como Hugo Chávez, descobriram que esta tarefa nem sempre é bem-sucedida.

Os generais, juízes e políticos que decidiram que Manuel Zelaya tinha que ser deposto poderiam estar se perguntando se eles não estariam melhores se não tivessem feito nada.

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