Os governos de diversos países anunciaram investimentos de bilhões de dólares de seus contribuintes para resgatar o sistema financeiro. Mas quais serão os custos da salvação? Nos últimos dias, a Grã-Bretanha anunciou a liberação de US$ 88 bilhões para resgatar o sistema bancário.

Os Estados Unidos deverão investir US$ 250 bilhões para comprar ações de bancos em dificuldades.

A Alemanha anunciou US$ 109 bilhões, e a França, US$ 55 bilhões, só para citar alguns países.

Todo esse dinheiro deverá sair dos gastos públicos desses países. Isso significa que os governos vão gastar mais dinheiro do orçamento do que tinham planejado.

Esse dinheiro virá principalmente de duas fontes: arrecadação de impostos e contratação de dívidas.

Sacrifício
Diante da questão se esse sacrifício vale a pena, os governos se mostram otimistas e asseguram que seus planos vão revitalizar o mercado de crédito e deter - ou pelo menos minimizar - a recessão na economia.

Também dizem acreditar que, no médio prazo, os bancos vão se recuperar de tal modo que os governos poderão vender a sua participação nessas instituições, obter ganhos e ressarcir a dívida.

"Não há razão para pensar que não vai funcionar", diz à BBC Mundo o analista Rafael Pampillón, do Instituto Empresa de Madri, na Espanha.

"Pode ter um custo mais ou menos alto, dependendo de quanto dinheiro os governos investirem e lembrando que, no final, antes ou depois, serão os contribuintes que terão de pagar a conta, por meio dos impostos que o governo arrecada", acrescenta.

Segundo Pampillón, historicamente os governos ajudaram, em maior ou menor grau, o setor bancário, e por isso é difícil que os planos atuais não funcionem.

No entanto, o analista reconhece que o custo será alto, "mas necessário". Pampillón diz que, caso não se agisse para resgatar os bancos a conta seria muito mais alta, e as conseqüências econômicas, muito graves.

Riscos
Há riscos, porém. Se os planos de resgate não forem suficientes, os governos teriam de injetar mais e mais recursos nos bancos, aumentando a pressão sobre o orçamento público.

Caso isso ocorresse, o governo em questão teria de escolher entre aumentar os impostos, aumentar a dívida, ou cortar os gastos.

Isso significaria que os contribuintes teriam uma dupla carga, ou que as autoridades teriam de esquecer os gastos em educação, saúde ou infra-estrutura, para citar alguns exemplos.

Em alguns países, os custos já podem ser sentidos. Na Espanha, a dívida deverá passar de 37% para 42% do PIB (Produto Interno Bruto) devido ao pacote de resgate.

Nos Estados Unidos, as intervenções do governo cotribuíram para a disparada do déficit orçamentário para US$ 455 bilhões, podendo chegar a US$ 700 bilhões no próximo ano.

Na Grã-Bretanha, segundo analistas, o déficit no orçamento poderá chegar a US$ 57 bilhões, acima dos US$ 43 bilhões que o governo havia previsto em março.

Os custos também alcançam outras esferas além da economia. As metas do milênio fixadas pela ONU (Organização das Nãções Unidas) para combater a pobreza estão em risco, assim como o combate às mudanças climáticas, já que, em época de contração econômica, os governos cortam gastos que consideram prescindíveis.

Um dos objetivos dos diferentes planos de resgate é conseguir que os bancos emprestem dinheiro entre si e também voltem a emprestar a empresas e indivíduos.

Na Grã-Bretanha, uma das condições impostas pelo governo aos bancos que receberão ajuda é de que terão de dar créditos a pequenas e médias empresas e a pessoas que queiram adquirir um imóvel.

Lições
Isso não significa, porém, que os bancos voltarão a emprestar dinheiro tão facilmente.

Uma das lições da atual crise é a prudência, o que leva a esperar que esses bancos reduzam os empréstimos aos níveis de 2007.

Pouco a pouco, a taxa de empréstimos interbancários em dólares a três meses começa a ceder, aproximando-se de 4%, mas ainda distante dos 2,8% em que se situava em setembro.

Isso deveria gerar confiança suficiente para recuperar o ânimo para conceder empréstimos. Caso isso ocorra, seria possível começar a medir os estragos que a volatilidade financeira causou na economia global, o que, por sua vez, poderia afetar uma vez mais a disposição bancária para reativar os créditos.

Caso tudo funcione, os governos não terão que desembolsar mais dinheiro para resgatar os bancos em dificuldades, o crédito voltará a fluir e os mercados regressarão a seus níveis normais.

Pode ser também que, em alguns anos, os bancos retornem ao terreno positivo, e aí sim os governos poderiam obter ganhos.

"É certo que, se os bancos se recuperarem e no futuro obtiverem ganhos, (os governos) poderão então privatizar as ações que tenham nessas empresas e utilizar esse dinheiro para pagar a dívida social", diz Pampillón.

No entanto, nem tudo é otimismo. Pampillón afirma que é difícil que esses ganhos sejam suficientes para compensar os altos custos dos pacotes.

Está claro que, independentemente de os planos de resgate funcionarem ou não, o estrago já está feito e a recuperação poderia levar anos para os países desenvolvidos, cujos governos e bancos terão de apertar o cinto antes que a economia se recupere totalmente.

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