Análise: Crise coloca em xeque união econômica na Europa

A crise financeira internacional trouxe à tona as desavenças dentro do mercado comum da União Européia? Os interesses de cada país estão começando a ter mais peso do que a meta de integrar a Europa? Essas são perguntas que estão sendo feitas por todos aqueles comprometidos com uma união ainda maior, como diz o Tratado de Roma, que estabeleceu a criação da União Européia. Eles estão preocupados com a forma como os países-membros estão ajudando seus próprios bancos e instituições financeiras.

BBC Brasil |

A Irlanda foi o primeiro país a se distanciar dos outros ao anunciar que passaria a garantir todos os depósitos em bancos do país, na semana passada. Grécia, Suécia, Áustria e Dinamarca, todos seguiram o exemplo. E a garantia da chanceler alemã, Angela Merkel, de que iria garantir depósitos privados semeou confusão e caos nos mercados.

Apenas um dia antes, no sábado, Merkel participava de uma reunião em Paris com outros líderes europeus em que declarou que a Europa precisava agir unida para vencer a crise.

"Nós concordamos que os Estados-membros devem tomar as decisões em nível nacional", disse Merkel. "Mas, ao mesmo tempo, os Estados-membros não devem tomar decisões sem contemplar os impactos que têm sobre outros Estados-membros."
Cerca de 24 horas depois, foi exatamente isso que os alemães aparentemente fizeram.

Interesse nacional
A dificuldade dos países europeus em coordenar uma abordagem comum da crise tem a ver com o fato de que a União Européia não tem o direito de legislar ou atuar em muitas áreas.

Por exemplo: o setor bancário é regulado por cada país, e os diferentes países têm problemas específicos.

Na Alemanha, não há o tipo de crise imobiliária que existe na Espanha, na Irlanda e no Reino Unido.

Entretanto, Pervenche Beres, a presidente do Comitê de Assuntos Econômicos e Monetários do Parlamento Europeu, está decepcionada com a decisão dos países europeus de colocar seus próprios interesses nacionais na frente de uma defesa européia coordenada do sistema bancário.

"Eu acho que isso é exatamente o que não deveríamos estar fazendo", disse Beres. "Poderia ser útil por apenas um momento no nível dos Estados nacionais, mas, no final das contas, isso irá destruir o mercado europeu. E vai destruir o pouco que temos, eu acho que seria um desastre."
Pervenche Beres é particularmente crítica quanto ao papel do comissário do Mercado Interno, Charlie McCreevy, que por acaso é um irlandês. Beres argumenta que McCreevy deveria ter convencido o governo do seu país a não conceder a garantia integral aos depósitos bancários ou a propor isso à União Européia.

Estrutura
Em uma coletiva em Bruxelas, Johannes Laitenberger, porta-voz do presidente da Comissão Européia, José Manuel Durão Barroso, foi pressionado a falar sobre as implicações das decisões nacionais para o mercado comum.

Em um diálogo um tanto exaltado com jornalistas, Laitenberger insistiu que o mercado está funcionando como deveria. Muitos dos jornalistas presentes claramente pensavam o contrário.

Em meio a este tipo de crise financeira, faltam à União Européia os mecanismos para o tipo de resposta rápida que os governos nacionais podem dar. O bloco europeu tem uma estrutura complicada e pouco ágil.

Geralmente, a Comissão apresenta uma medida. Os ministros (e, cada vez mais, o Parlamento) analisam a proposta por várias semanas. Aí acontece uma votação, e só então é fechado um consenso entre os chefes de governo.

Pode demorar anos para se aprovar uma única lei. Dificilmente é uma receita que permite ações decisivas em um cenário que parece estar mudando a cada hora.

Além disso, o gerenciamento da política econômica é uma área que os países-membros da União Européia fazem questão de manter em suas mãos. Ao lidar com isso, o bloco europeu pode estar pisando em um campo minado.

Isso, obviamente, não significa que uma abordagem comum não possa surgir.

Por exemplo, à medida que mais países oferecem garantias aos poupadores, aumenta a pressão para que os que ainda não oferecem garantias o façam - já que os investidores podem transferir seu dinheiro de uma conta em um país da União Européia que não oferece segurança total para outro que ofereça.

Em um mercado em que o dinheiro está fugindo em busca de um refúgio seguro, pode ser o medo de uma corrida aos bancos que forçará os países coordenarem suas ações, em vez do desejo de uma maior integração européia.

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