Análise: Crise ameaça estilo de vida europeu

Nos Estados Unidos, políticos falam com frequência no estilo de vida americano. Na Grã-Bretanha também - há muitos ansiosos para defender o estilo de vida britânico.

BBC Brasil |

As palavras raramente são definidas. Parte do apelo de lutar por um "estilo de vida" é que ele é entendido intuitivamente pelas pessoas.

Agora, o relativamente novo presidente do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy, começou a falar em um "estilo de vida europeu". Ele teme que esteja ameaçado e não possa ser mantido em uma Europa com crescimento lento.

Recentemente, com o euro sofrendo golpes nos mercados financeiros, o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Barroso, falou em "tornar a Europa uma economia de mercado social, inclusiva e eficiente no uso de recursos - refletindo o que nos torna especiais, o estilo de vida europeu".

Este "estilo de vida europeu" é um pouco difícil de definir, mas pessoas de fora costumam pensar que ele significa estruturas de bem-estar social fortes, gastos públicos elevados, aposentadorias generosas e redes de segurança robustas. Para muitos, estes são elementos-chave no que torna uma sociedade civilizada.

Parte das consequências negativas da recessão é que se passou a foice nos gastos públicos. Isso não é voluntário. É resultado da pressão dos mercados, que estão forçando os governos a reduzir seus déficits e a sanear suas finanças.

Então, no momento, quando a recuperação é frágil, os governos estão adotando cortes profundos nos gastos públicos e arriscando asfixiar os primeiros sinais de recuperação. A demanda pode estar sendo reduzida exatamente no momento errado. Mesmo assim, o setor público está sob ataque.

Pacote irlandês
Pegue a Irlanda, por exemplo. O governo impôs um pacote de austeridade de 4 bilhões de euros (o equivalente a cerca de US$ 5,440 bilhões). Os salários no setor público foram reduzidos. Pensões e outros benefícios da previdência social foram cortados. Aposentadorias para o funcionalismo foram cortadas. Um pacote como esse na Grã-Bretanha seria inimaginável politicamente.

Na Espanha, estão estudando a possibilidade de um corte de 50 bilhões (o equivalente a cerca de US$ 68 bilhões) nos gastos públicos em quatro anos, mesmo que a sua dívida pública como proporção do PIB (a 66%) esteja abaixo da média na União Europeia.

Os remédios para a crise adotados até agora não têm sido tão duros quanto os da Irlanda, mas, na semana passada, um documento levantou a possibilidade de reduzir a aposentadoria espanhola.

Os sindicatos pularam da cadeira e a ideia foi arquivada, mas é uma indicação da direção dos ventos. Dar uma pausa na cultura de provisões generosas é um assunto tão delicado que o rei Juan Carlos manifestou-se, pedindo união aos espanhóis.

Portugal também está procurando cortar projetos de infra-estrutura. Programas de austeridade também estão sendo elaborados no país.

Na França, o presidente Nicolas Sarkozy enfrenta uma negociação dura com os sindicatos e patrões para conseguir a aprovação de uma reforma na aposentadoria francesa. A aposentadoria aos 60 anos já não é mais garantida.

E, claro, a Grécia está congelando o salário no funcionalismo, elevando a idade de aposentadoria e sendo pressionada a reduzir seu generoso sistema de pensões.

Déficits podem estar mudando o estilo de vida europeu.

"Generosidade" alemã
Esta é uma mensagem dura de vender. E a Grécia mostra o quão dura. O primeiro-ministro grego, George Papandreou, fez o papel de Sr. Austeridade quando sentou à mesa junto com outros líderes europeus na semana passada. Quando voltou para seu país, o tom mudou.

A União Europeia, disse ele, foi "tímida" diante da crise. Ele está realmente certo. Se ele quiser ver "timidez", que visite a Alemanha, onde a maioria dos alemães quer ver a Grécia expulsa do clube de países que adotam o euro.

Por que? Porque, com a condescendência de Bruxelas, a Grécia "massageou" os números para entrar no clube. E aí mascarou suas contas.

Os alemães não estão dispostos a generosidade. "Nós não ajudamos um alcoólatra dando para ele uma outra garrafa de Schnapps", disse Frank Schaeffler, vice-porta-voz das Finanças do liberal Partido dos Democratas Livres (FDP).

"Se nós começarmos agora (a socorrer outros), onde vamos parar?", questionou o vice-líder da União Democrata Cristã (CDU), da chanceler Angela Merkel, no Parlamento.

Muitos gregos com quem conversei na semana passada querem que a dor seja compartilhada. Eles acham que isso é parte de pertencer à União Europeia. Em época boa pode ser assim, mas eles não deveriam esperar que trabalhadores alemães e franceses coloquem a mão no bolso para salvá-los.

Um resgate não pode ser escondido. As pessoas vão saber e alguns contribuintes podem levantar objeções. É aí que o Fundo Monetário Internacional se torna uma opção atraente. Os europeus podem ter que engolir um pouco do orgulho e permitir que um fundo externo faça o que eles podem achar politicamente difícil.

Mensagem de Atenas
Agora em Bruxelas, Papandreou estava dizendo que a Grécia não está pedindo dinheiro. Bom, ainda não, mas um membro de seu círculo pessoal disse na semana passada que os mercados não acreditam que a Grécia pode reduzir seu déficit para 3% do PIB até 2012. Ou a Grécia será resgatada ou vai deixar de pagar as dívidas. Esta é a mensagem que recebi de Atenas.

Mesmo que a União Europeia dê vida a um pacote de ajuda, o euro está ferido. Um número grande de economistas acredita que a moeda tem falhas inerentes. É difícil manter uma moeda única quando Estados soberanos têm políticas fiscais diferentes.

Algumas pessoas em Bruxelas enxergam aí uma oportunidade para encorajar uma maior integração. Isso traria muitos riscos. Não há evidências de que os eleitores querem isso, como foi demonstrado em alguns dos votos no Tratado de Lisboa.

De qualquer forma, se o euro tiver que ser gerenciado por um único Departamento do Tesouro, isso vai aprofundar divisões entre os que estão no clube do euro e os de fora dele.

Como costuma acontecer com frequência em política, os acontecimentos avançam com uma rapidez alucinante.

Poucas semanas atrás, representantes europeus clamavam para que sua voz fosse ouvida no mundo. Agora, a moeda única deles enfrenta um futuro incerto, e o "estilo de vida europeu" é um pouco mais difícil de ser definido.

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