Análise: Como Barack Obama desafiou a história

Para medir completamente a conquista histórica da vitória de Barack Obama, vale a pena lembrar como eram os Estados Unidos em 1961, ano de seu nascimento. Na época, muito do sul do país ainda era segregado, as raças separadas desde o berço até o túmulo.

BBC Brasil |

Os negros - negroes como eram então conhecidos - nasciam em hospitais segregados, eram educados em escolas segregadas e enterrados em cemitérios separados.

Em 1954, a decisão Brown da Suprema Corte, que determinava a integração em escolas do sul do país, foi recebida em muitas comunidades sulistas com uma campanha de "resistência em massa".

Para os segregacionistas de linha-dura, a decisão se tornou uma metáfora da época, enquanto lutavam para manter um sistema de apartheid racial conhecido pelo apelido enganadoramente amigável de Jim Crow.

Washington ainda era considerada um posto sofrido para diplomatas africanos, apesar dos esforços dos presidentes Truman e Eisenhower de unificar a capital.

Regras restritivas os impediam de viver nas partes mais elegantes da cidade, e eles tinham acesso negado em salões de barbeiro chiques.

Distância percorrida
Quando os diplomatas africanos faziam a jornada para a sede da ONU (Organização das Nações Unidas), em Nova York, percorriam uma estrada, a Rota 40, repleta de hotéis, lanchonetes e restaurantes segregados.

No começo dos anos 60, o primeiro assessor presidencial negro, um ex-relações públicas chamado E. Frederic Morrow, publicou as memórias de seus anos trabalhando com Dwight D. Eisenhower.

Chamado de Black Man in the White House ("Homem Negro na Casa Branca", em tradução livre), o livro revelava como Morrow nunca teve permissão para ficar sozinho no mesmo ambiente com uma mulher branca, tamanho o medo de que poderia molestá-la sexualmente.

Ao se tornar presidente em 1961, John F. Kennedy indicou uma série de negros para cargos de alto escalão. Mesmo assim, o assessor afro-americano mais valorizado pelo jovem presidente foi um homem chamado George Thomas, cujo trabalho todas as manhã era separar a roupa de Kennedy.

Ao deixar que os outros agregassem significados raciais para sua candidatura, Barack Obama não falou muito sobre a luta pela igualdade dos negros, ou sobre a década tumultuada em que nasceu.

Leia seus discursos e você encontrará poucas menções à era dos direitos civis.

Porque, para ser um candidato que desafia a história, ele precisava ser uma espécie de figura que nega a história. A estratégia durante todo o tempo foi de tirar a ênfase de sua raça.

Uma sacada de agenda e um saldo da história significaram que Obama fez seu discurso de aceitação da candidatura em Denver no 45º aniversário do discurso "I Have a Dream" ("Eu Tenho um Sonho"), de Martin Luther King.

Mas, mesmo então, Obama não mencionou King pelo nome, referindo-se a ele como "o jovem pastor da Geórgia".

Negros e brancos
Em junho, na noite em que finalmente venceu o desafio representado por Hillary Clinton, o discurso de comemoração de Obama não fez menção a sua raça, e ele dedicou a vitória à avó.

O presidente eleito entendeu um dos maiores paradoxos da era dos direitos civis.

Ao mesmo tempo em que abriu caminho para seu sucesso, a era dos direitos civis também tornou mais difícil para candidatos do norte dos Estados Unidos chegar à Presidência.

Quando o presidente Lyndon Johnson tornou lei o histórico Ato de Direitos Civis, em 1964, disse a um assessor: "Perdemos o sul por uma geração". Mas ele errou no cálculo.

O sul, que uma vez já foi fortemente democrata - os democratas costumavam ser uma aliança infeliz entre os moderados e progressistas do norte e os segregacionistas do sul - começou a votar constantemente nos republicanos para presidente.

Antes de 1964, os democratas venceram seis de oito eleições presidenciais. Após 1964, perderam sete de dez.

Conquistando o impossível
A era dos direitos civis foi responsável pela enorme anomalia histórica da política americana do pós-guerra: o processo através do qual o partido de Abraham Lincon, o Grande Libertador, estabeleceu um reduto forte nos Estados da Velha Confederação.

Não é coincidência que todo presidente democrata desde a aprovação do Ato de Direitos Civis de 1964 tenha saído do sul: Jimmy Carter, Bill Clinton e, segundo alegariam os inconformados, Al Gore.

A lei não só acabou com a segregação, mas também redesenhou o mapa político dos Estados Unidos.

Vale então lembrar que Barack Obama não só será o primeiro presidente afro-americano, mas o primeiro democrata do norte a servir na Casa Branca desde Kennedy.

Conquistar esse fato inédito no campo racial representa um feito dos mais extraordinários.

Desde o final da Reconstrução - o período seguinte à Guerra Civil americana - houve apenas três senadores negros. Apenas dois Estados, Massachusetts e Virgínia, elegeram governadores negros.

Com a eleição de um presidente negro, o que muitos consideravam praticamente impossível se tornou realidade.

Em 28 de agosto de 1963, Martin Luther King falou sobre seu sonho para a América, com a estátua de Abraham Lincoln servindo de glorioso púlpito.

Em 20 de janeiro de 2009, Barack Obama aparecerá nos degraus do lado oeste do Capitólio e selará seu triunfo histórico com apenas 35 palavras: o juramento presidencial.

* Nick Bryant é autor de "The Bystander: John F. Kennedy and the Struggle for Black Equality"
("O Espectador: John F. Kennedy e a Luta pela Igualdade Negra, em tradução-livre")

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