Análise: China deve aprender lições com Japão dos anos 1980

Nos anos 1980, a economia do Japão crescia a passos largos e o país era visto como destinado a ultrapassar os Estados Unidos no posto de maior economia do planeta, assim como a China é vista hoje. Mas o estouro da bolha de crescimento levou a duas décadas de estagnação.

BBC Brasil |

As aparentes semelhanças com a China têm levado muitos a se perguntar se a economia chinesa pode seguir o mesmo caminho ou se o país terá aprendido com a experiência japonesa.

No último dia da década de 1980, o índice Nikkei da Bolsa de Valores de Tóquio fechou no seu valor máximo histórico, de 38.916 pontos.

Os bancos emprestavam em grande quantidade, e os preços dos imóveis aumentaram tanto que se dizia que o Palácio Imperial, no centro de Tóquio, valia mais do que todos os imóveis da Califórnia inteira.

Empresas japonesas compravam ativos pelo mundo, incluindo o simbólico Rockfeller Center em Nova York.

Estouro
Mas de repente tudo começou a dar errado.

A bolha estourou tão dramaticamente que os anos 1990 foram chamados pelos japoneses de "A Década Perdida". A década seguinte foi apenas um pouco melhor.

Após 20 anos, o mercado de ações ainda está cerca de 75% abaixo do pico - o índice Nikkei fechou nesta quinta-feira a 10.868 pontos.

Indivíduos e empresas ficaram endividados pelos empréstimos tomados para a comprar ativos cujos preços desmoronaram.

O governo japonês teve que tomar medidas, colocando grandes somas de dinheiro em projetos de infraestrutura para estimular a economia. Há pontes que levam a lugar nenhum, a costa e rios foram concretados.

O resultado foi uma enorme dívida pública. "A dívida no Japão tem subido sem parar", diz Martin Schulz, economista-sênior do Instituto de Pesquisas Fujitsu.

"A dívida é agora duas vezes maior que a renda anual. Este é um número enorme. É muito difícil de superar e é considerado um grande erro, mesmo pelo atual governo", diz.

Erros
Muitos se perguntam agora se a China cometerá os mesmos erros que o Japão.

Na superfície, há semelhanças verdadeiras entre a China de hoje e o Japão nos anos 1980 - um alto índice de poupança, uma taxa de câmbio subvalorizada e um crescimento rápido baseado nas exportações, criando o maior superávit em conta corrente do mundo.

As ruas comerciais mais badaladas de Tóquio estão hoje cheias de turistas chineses que chegam para comprar em grandes quantidades.

No início do mês, quando um atum atingiu o valor recorde de US$ 175 mil num leilão no mercado de peixes da cidade, um dos compradores era um empresário baseado em Hong Kong.

Os preços dos imóveis em Pequim e em Xangai dispararam.

"A China é provavelmente um dos melhores estudantes do que o Japão fez, incluindo os erros das últimas décadas", diz Schulz.

"Eles estão fomentando sua economia doméstica, e os preços dos ativos estão indo para as alturas. Então eles tentarão controlar isso o mais cedo possível para não terminar na mesma situação que a do Japão atualmente", afirma.

Memórias
A economia da China pode ter ultrapassado a do Japão em tamanho total, mas tem uma população dez vezes maior do que a japonesa.

Os japoneses ainda estão entre os povos mais prósperos do mundo.

Mas para gente como o taxista Taro Suzuki, de 57 anos, que nos anos 1980 fez fortuna com especulação imobiliária e depois perdeu tudo com o estouro da bolha, ainda são vivas as memórias de quando era o Japão a bola da vez, não a China.

"Cometi erros", ele diz.

"Talvez não seja justo dizer isso, porque muitos motoristas de táxi querem fazer este trabalho e se esforçam para isso. Mas quando olho para trás na minha própria vida, não acho que tive sucesso", afirma.

"É a mesma coisa com a economia japonesa. Nunca pensamos que estaríamos neste estágio em que estamos hoje", diz.

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