Análise: Ataque transforma a situação no Paquistão

Parecia um recado vindo do inferno. A enorme explosão foi ouvida a 15 quilômetros de distância.

BBC Brasil |

Testemunhas disseram à BBC que um veículo havia se lançado contra as barreiras de segurança em frente ao Hotel Marriott, em Islamabad.

O prédio de 290 quartos se tornou o cenário de uma carnificina quando a explosão rasgou sua fachada, destruindo tudo em seu caminho.

O Marriott fica a apenas meio quilômetro do Parlamento do Paquistão e da residência do primeiro-ministro.

Fontes das forças de segurança acreditam que estes eram os alvos preferenciais, mas que o responsável (ou responsáveis) pelo ataque foi desencorajado pelo grande policiamento em torno destes prédios.

No momento do ataque, o presidente Asif Zardari, o premiê Yousuf Raza Gilani e muitos integrantes do Parlamento estavam jantando na casa do primeiro-ministro.

Se o atentado houvesse atingido aquele alvo, as conseqüências teriam sido sem precedentes na história do Paquistão.

Eu já vi cenas de explosões a bomba em várias partes do país, mas nunca assisti a nada desta dimensão.

Mesmo a 500 metros de distância, você se via pisando em destroços do prédio e pedaços de árvores.

Sangue
Em um raio de 200 metros do hotel, a destruição foi total. Os carros que estavam estacionados na rua e as árvores da avenida principal ficaram em pedaços.

Uma mistura de vidro, metal, galhos quebrados e gasolina cobria a rua enquanto eu andava em direção ao hotel.

Aqui e ali, havia gotas de sangue no caminho, vindas dos mortos e feridos carregados para fora do prédio.

Ambulâncias se apressavam nas duas direções da avenida, sirenes tocando, levando os feridos para hospitais cada vez mais lotados.

Alvo simbólico
O Hotel Marriott é um marco de Islamabad, um símbolo de riqueza e prestígio. Ele fazia sucesso entre os estrangeiros, especialmente os ocidentais.

Integrantes das equipes de resgate dizem que muitas pessoas podem ter ficado presas nos andares mais altos do prédio, mas por muito tempo os bombeiros não conseguiram chegar perto daquele inferno, que era alimentado por tubulações de gás que explodiam.

O trabalho de resgate também foi prejudicado por rachaduras nas paredes internas e externas do prédio. Em um dado momento, policiais e bombeiros correram do local, achando que tudo ia desabar.

Responsabilidade
Até agora, nenhum grupo reivindicou o atentado, mas o principal suspeito é o talebã paquistanês, que opera a partir do noroeste do país.

O fato de o ataque ter acontecido apenas horas depois do primeiro discurso do presidente Zardari no Parlamento não é visto como uma mera coincidência.

No discurso, Zardari disse que o Paquistão estava pronto para encarar seus desafios na "guerra contra o terror".

Ele reiterou que seu país negociaria apenas com aqueles que depusessem as armas e suspendessem os ataques às forças de segurança e instalações do governo.

Mas os militantes aparentemente tinham um plano diferente, o de lançar o mais devastador ataque jamais acontecido na capital.

O alvo, ainda que secundário, é simbólico. Ministros frequentemente esbarravam com diplomatas estrangeiros ali. O local também era popular com a imprensa estrangeira e uma das razões para isso é que o hotel vendia bebidas alcoólicas.

Não haverá deposição de armas, rendição ou mudança de idéias.

Em maio passado, o comandante do talebã paquistanês, Baitullah Mahsud, disse à BBC : "Não esperamos que o novo governo mude nada. Vamos lutar contra ele de todas as maneiras possíveis. Se não estivermos seguros em nossas casas, eles tampouco estarão."
"Eles" significam agora os cidadãos comuns do Paquistão e essa mudança é muito representativa da transformação pela qual passou esta guerra.

Ela não é mais uma batalha inconstante de ideais frágeis. Agora, ela é, sem dúvida, uma batalha até a morte pela alma do Paquistão.

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