Análise: Apagões e desvalorização da moeda colocam Chávez à prova

As crises energética e econômica na Venezuela colocarão à prova a popularidade do presidente Hugo Chávez neste ano e podem levar a um resultado desfavorável na composição do novo Parlamento que será eleito em setembro, na opinião de analistas entrevistados pela BBC Brasil.

BBC Brasil |

Chávez, que está no poder há 11 anos, iniciou 2010 anunciando duas controvertidas medidas de governo: a desvalorização da moeda nacional, o bolívar, e o racionamento de energia elétrica em todo o país.

"As duas variáveis são negativas para a popularidade do presidente. Impactam o cotidiano e o bolso da população", afirmou à BBC Brasil o economista Luis Vicente León, da consultoria Datanalisis.


Impacto no bolso da população coloca pressão sobre Chávez / AP

Há uma semana, o governo venezuelano implementou um plano de racionamento de energia que prevê cortes no fornecimento em todo o país, em dias alternados, até o mês de maio.

O anúncio do apagão provocou reação imediata na população, levando Chávez a voltar atrás, ao admitir falhas na programação dos cortes de energia, seguido da suspensão do racionamento na capital, Caracas.

De acordo com o governo, a medida visa impedir o colapso no setor energético. O abastecimento da principal hidrelétrica do país foi severamente afetado pela seca provocada pelo fenômeno climático El Niño.

A oposição, por sua vez, responsabiliza o governo por faltas de investimentos no setor.

Custo político

Para Luis Vicente León, diferentemente do que costuma ocorrer na Venezuela, onde a popularidade do presidente é superior à aprovação de seu governo, a tendência tende a não se repetir nesta oportunidade.

"Em ambos os casos, é muito difícil que o governo consiga construir bodes expiatórios que liberem o presidente do custo político dessas medidas", afirmou.

No bairro de La Vega, na periferia de Caracas, a moradora Fany Rudy não responsabiliza diretamente ao presidente pelas dificuldades energéticas e econômicas. "A desvalorização eu nem entendo muito bem. Para quem é pobre, não muda muito, eu não tenho dólar", disse Fany à BBC Brasil.

Desde 2003, o governo vinha mantendo a taxa oficial de câmbio estável de 2,15 bolívares por dólar. Pelo novo sistema cambial, implementado em 8 de janeiro, um dólar será correspondente a 2,6 bolívares para importações de produtos de primeira necessidade, como alimentos e medicamentos, e a 4,3 bolívares nas transações para a compra de produtos considerados não essenciais.

Em relação ao racionamento de energia, Fany disse compreender a necessidade de economizar eletricidade. "Não choveu, a represa secou e temos que economizar", disse. Porém, esta moradora da periferia, que ganha a vida alugando máquinas de lavar roupa no bairro, argumenta, assim como a maioria dos moradores entrevistados pela BBC Brasil, que o governo poderia ter evitado a crise, criando fontes alternativas de energia.

"Mas não adianta, o presidente fala, mas ninguém executa. Precisaríamos de uns quatro ou cinco Chávez no governo para construir o mundo que ele diz, mas não é bem assim", disse.

"Chávez quer implantar o socialismo, mas os funcionários não acreditam nisso e estão enriquecendo. Então o socialismo só vale para nós (população) e eles (ministros) continuam vivendo no capitalismo?", questionou Fany.

A seu ver, aliada à crise energética, a ineficiência do governo no combate à violência e à corrupção podem minar a base de apoio do presidente venezuelano. "A água tanto bate até que fura. As pessoas vão se cansando", acrescentou.

Novo modelo econômico

A desvalorização da moeda também duplicará o ingresso fiscal do governo, que vem prometendo injetar a receita no desenvolvimento do aparelho produtivo nacional, que foi duramente afetado pela onda de importações subsidiadas com o dólar cotado a 2,15 bolívares.

Na avaliação do economista e ex-ministro de Indústria Víctor Álvarez, esta é uma oportunidade para o governo modificar o modelo baseado na exportação do petróleo.

Para ele, mudanças no modelo econômico que levem à industrialização do país poderão diminuir o custo político de uma iminente manutenção da inflação e da perda de poder aquisitivo de grande parte da população.

Nesta semana, Chávez anunciou um reajuste do salário mínimo em 25%, patamar inferior às projeções de analistas econômicos, que previam que a inflação deverá manter a alta de 30% registrada no último ano.

"O risco da queda popularidade do Chávez é o que obriga o governo a reagir. A medida tenta impedir males maiores", afirma Alvarez à BBC Brasil.

A seu ver, o Executivo deve apostar na reativação da economia, apostando em investimentos na agricultura e indústria para reverter o cenário de crise.

"É imprescindível que a desvalorização não fique como uma medida isolada para que seu efeito não se anule", afirma Álvarez, ao acrescentar. "Se os setores produtivos crescerem e novos empregos estáveis forem gerados, isso potencializará a popularidade de Chávez".

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