Análise: Al-Qaeda pode transformar Iêmen em polo exportador de militantes

Para se ter uma ideia das intenções dos líderes da Al-Qaeda que operam no Iêmen e lideram a organização na Península Arábica, basta dar uma olhada no que eles disseram sobre o atentado frustrado em um avião que seguia da Holanda rumo aos Estados Unidos no dia de Natal. Em um comunicado petulante e provocador, eles afirmam que enviaram o estudante nigeriano para o avião e que ele fracassou apenas por uma falha técnica com a bomba.

BBC Brasil |

Para os militantes, no entanto, chegar perto de concluir uma missão é quase tão bom como completá-la com sucesso.

E basta olhar para o terreno desse país para entender por que a Al-Qaeda está se sentindo tão confortável, tão relaxada a ponto de haver relatos de que um dos líderes da rede mudou sua esposa e toda a família da Arábia Saudita para o Iêmen.

As montanhas do país são irregulares, pedregosas, de difícil acesso e - o melhor de tudo, do ponto de vista de um militante extremista - não são controladas pelo governo central.

A Al-Qaeda na Península Arábica se estabeleceu no Iêmen depois que foi forçada a deixar a Arábia Saudita. A rede se aproveitou do fato de que grandes faixas de terra no território iemenita são controladas por tribos poderosas e bem armadas, e não por um governo que está cada vez mais próximo dos Estados Unidos e seus assessores antiterrorismo.

Ataques

Nos dias 17 e 24 de dezembro, alguns alvos da Al-Qaeda no Iêmen foram atacados. Relatos com base em fontes americanas sugerem que 60 "militantes" foram mortos.

Nos Estados Unidos, há relatos de que foram as forças militares americanas que realizaram os ataques.

Mas jornalistas locais que afirmam terem visitado os locais atingidos contam uma história diferente.

Abdulelah Hider Shaea, que tem uma relação próxima com a Al-Qaeda, disse que, nos locais atacados, as pessoas insistem que dezenas de mulheres e crianças estão entre os mortos.

O jornalista contou também que um dos moradores acredita que o governo do Iêmen e o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, trocaram congratulações sobre a morte das crianças.

Negociar com tribos que perderam uma grande quantidade de mulheres e crianças em ataques do governo será uma tarefa difícil.

Shaea disse que a Al-Qaeda no Iêmen acredita que as ações das forças americanas facilitarão o recrutamento da rede extremista. Ele ainda comparou o Iêmen às áreas tribais do Paquistão.

"Os Estados Unidos querem lutar contra a Al-Qaeda aqui. Não vai funcionar, eles transformaram isso aqui no novo Waziristão, exportando combatentes para vários lugares do mundo", disse.

Uma grande variedade de observadores, no Iêmen e fora do país, concorda que uma estratégia rigorosa contra o terrorismo criará mais problemas que soluções.

Mas as alternativas às ações militares são lentas e também não garantem sucesso.

Em Washington, o presidente Obama está sob pressão para agir. A tentativa de atentado no dia de Natal em um avião que ia para Detroit pode ter fracassado, mas trouxe de volta as memórias do 11 de Setembro. As ações militares continuarão.

Problemas

A Al-Qaeda não é, no entanto, o único problema do Iêmen.

A Arábia Saudita interveio na já antiga guerra tribal no norte do país. Um movimento separatista no sul quer que o Iêmen seja dividido novamente em duas nações.

Os pobres no país estão ficando mais pobres e os níveis de analfabetismo são altos. Além disso, o Iêmen tem a maior taxa de natalidade do Oriente Médio.

O petróleo, o principal produto de exportação do país, acabará nos próximos dez anos e os novos campos de gás não parecem lucrativos o suficiente para substituir o produto.

O fornecimento de água no Iêmen também está secando, influenciado pela quantidade usada para irrigar as plantações de khat, uma planta local.

Mascar as folhas de khat, que são um estimulante fraco, é uma mania nacional.

O presidente do Iêmen, Ali Abdallah Saleh, cerca-se de membros de seu próprio clã e lida habilidosamente com as outras forças do governo iemenita para permanecer no poder.

É uma estratégia que vem dando certo nos últimos 30 anos. Mas o governo de Saleh é acusado de ser não apenas ineficiente, mas também corrupto.

Por essas razões, os Estados Unidos, a Grã-Bretanha e a Arábia Saudita estão ficando cada vez mais preocupados com o Iêmen e os desafios do país.

Eles terão uma chance de conversar sobre o que fazer em um encontro em Londres no final deste mês.

Quando perguntei ao professor de Ciências Políticas da Universidade de Sanaa, Abdullah al-Faqih, sobre a posição do Iêmen, ele foi sucinto.

"O país está indo para o inferno. As crises estão convergindo umas com as outras", disse.

O risco, segundo ele, é de que o Iêmen siga o mesmo caminho da Somália, o vizinho no Golfo de Áden, que mergulhou na violência e em um sangrento conflito há uma geração e ainda não se recuperou.

O Iêmen não é a Somália ou o Afeganistão. Pelo menos ainda não. O país não tem um Estado fracassado, mas que está fracassando.

Caos

Será muito difícil estabilizar a situação do país, mas não impossível.

Muitos iemenitas são devotos, mas isso não os transforma em combatentes da jihad ("guerra santa"). As tribos são poderosas e tradicionalmente abertas a novas negociações.

Uma estratégia para os inimigos da Al-Qaeda pode ser pagá-los para que eliminem a rede de seu território.

Os sauditas e os americanos têm bastante dinheiro para isso. Eles não necessariamente têm o tempo, a sorte ou o julgamento necessários que precisam vir junto com o dinheiro.

Uma ação é necessária porque todos os indicadores sugerem que, se a situação ficar como está, o Iêmen vai despencar para o caos.

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