Análise: Ahmadinejad irrita aliados conservadores

Com a crise política que se instalou no Irã após as eleições presidenciais de 12 de junho ainda dividindo o país, o presidente Mahmoud Ahmadinejad se envolveu agora em uma nova disputa, desta vez com seus parceiros conservadores. A polêmica, que é tão grave quanto a disputa em relação às eleições, pode, no entanto, ser ainda mais prejudicial ao presidente.

BBC Brasil |

A disputa teve início quando, aproximadamente um mês após as eleições, Ahmadinejad provocou a fúria dos conservadores ao promover um de seus vice-presidentes, Esfandiar Rahim Mashaie, para o posto de primeiro vice-presidente.

A promoção faria de Mashaie o segundo na ordem de comando do país, o homem que assumiria o cargo caso Ahamdinejad morresse, por exemplo.

Como Ahmadinejad já devia prever, a indicação deixou os conservadores furiosos.

Mashaie já era mal visto por parte dos conservadores do Irã por afirmar que o país seria "amigo" dos israelenses, embora afirmasse dividir com o governo de Teerã o ódio pelo Estado de Israel.

Durante dias, Ahmadinejad procurou driblar a crise causada pela indicação, ignorando os sinais de bastidores de que o líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, também não estava feliz com a medida.

Finalmente, na semana passada, uma carta de Khamenei foi divulgada na TV estatal iraniana onde ele pedia que Mashaie deixasse o cargo.

Crise
Ahmadinejad teve que ceder ao pedido de Khamenei, mas o problema continuou tendo efeitos nocivos para ele.

No último domingo, foi anunciado que Ahmadinejad demitiu o ministro de Inteligência, Gholam Hossein Mohseni Ejeie, após o que teria sido uma discussão acalorada em uma reunião de gabinete a respeito da indicação de Mashaie.

Chegou a ser divulgado que quatro ministros teriam deixado o governo de Ahmadinejad, mas a informação foi depois negada.

Pouco depois, no entanto, o ministro da Cultura e das Diretrizes Islâmicas, Mohammad-Hossein Saffar-Harandi, anunciou sua renúncia ao cargo.

Relatos sugerem que Ahmadinejad não teria aceitado a renúncia, mas até esta segunda-feira, a questão continuava sem solução.

Ao anunciar a renúncia, Saffar-Harrandi afirmou que a polêmica em relação a Mashaie teria enfraquecido o governo, em um dos comentários mais polidos entre os que foram ouvidos dos conservadores do país.

O jornal conservador Tehran Emrouz descreveu o domingo como um dia "caótico" para o governo.

Provocação
Outro jornal conservador, o Khabar, publicou a manchete "Demissão: A consequência de discordar de Ahmadinejad".

Já o parlamentar Ali Motahari pediu que Ahmadinejad "controlasse seus nervos" e acusou o presidente de intencionalmente causar tensão no país.

Mas Ahmadinejad parece determinado a provocar até mesmo aqueles que deveriam ser seus aliados.

Após o conflito, ele imediatamente nomeou Mashaie como seu chefe de gabinete e assessor.

O presidente também ofereceu um novo trabalho ao ex-ministro do Interior, Ali Kordan, que sofreu um processo de impeachment no Parlamento depois de mentir ao afirmar ter um título de doutorado de uma certa "London Oxford University".

Razões
As razões por trás da polêmica, no entanto, ainda são difíceis de entender.

De acordo com uma versão, Mashaie é mal visto pelos conservadores por sua relativa "moderação" ao afirmar que iranianos e israelenses são povos "amigos".

Para outros analistas, no entanto, os conservadores estariam preocupados com as ligações de Mashaie com a polêmica seita Hojjatieh, cujos membros acreditam no retorno iminente do "Imam (líder religioso) oculto", o Mahdi, e em uma espécie de apocalipse.

De qualquer forma, Mashaie é visto como uma grande influência para Ahmadinejad, e a disputa pode indicar desavenças entre os conservadores também em relação às últimas eleições presidenciais.

Guarda Revolucionária
Há muitas pessoas no Irã que enxergam a reeleição de Ahmadinejad como um "golpe de Estado", do qual os verdadeiros vencedores seriam os membros da Guarda Revolucionária.

Esta preocupação está presente mesmo entre alguns apoiadores dedicados da Revolução Islâmica.

O ex-ministro Saffar-Harandi, que se envolveu em uma disputa com Ahmadinejad no último domingo, por exemplo, é alguém que, de forma nenhuma, pode ser classificado como um moderado.

Durante seu governo, Ahmadinejad procurou afastar do poder diversos conservadores, entre eles Ali Larijani, principal negociador de assuntos nucleares do Irã e que pediu renúncia em 2007.

Larijani é agora, no entanto, o poderoso presidente do Parlamento iraniano, conhecido como Majlis, lugar onde pode acontecer o próximo confronto de Ahmadinejad.

O presidente deve tomar posse para seu segundo mandato no cargo em breve, mas a data da cerimônia está sendo mudada constantemente, o que pode indicar uma possível disputa de bastidores.

Depois disso, ele deve indicar os nomes de seu gabinete, que precisam ser aprovados pelo Parlamento.

A disputa atual aponta que Ahmadinejad não deve propor nomes de consenso e os parlamentares não devem facilitar a vida dos indicados.

Assim, enquanto Ahmadinejad e o aiatolá Khamenei buscam reafirmar seus poderes, fica cada vez mais claro que eles se tornaram reféns de seu próprio eleitorado - os conservadores de direita.

Há inclusive boatos sobre uma tentativa de impeachment do presidente, uma manobra que precisaria da aprovação de Khamenei.

De qualquer forma, tanto manter quanto descartar Ahmadinejad pode ser prejudicial para Khamenei.

Toda esta disputa deve ser bastante satisfatória para a oposição, na medida em que ela continua sua campanha para tentar reverter o resultado das eleições.

De qualquer forma, os partidários da oposição estão tão raivosos e motivados como no dia seguinte às eleições, e agora eles enfrentam um governo cujo núcleo está dividido.

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