Análise: Acusação dos EUA à Síria levanta dúvidas

Mais de seis meses depois de um ataque aéreo de Israel ter destruído um suposto reator nuclear em construção na Síria com a ajuda da Coréia do Norte, a divulgação de fotos que o governo americano afirma ter registrado antes do ataque levantou dúvidas e abalou o mundo diplomático. As ramificações podem ser consideráveis, para o Oriente Médio e para o futuro do programa de armas nucleares da Coréia do Norte.

BBC Brasil |

O caso também aumenta a desconfiança entre os Estados Unidos e a agência nuclear das Nações Unidas (AIEA). Mesmo no Congresso americano, os congressistas não ficaram satisfeitos com o fato de o governo ter escondido estas provas por algum tempo.

O pivô de tudo isso é o vídeo de dez minutos divulgado pelo governo de George W. Bush, que mostra fotografias e alega que as fotos foram tiradas dentro de uma instalação em construção na Síria.

Não há confirmação independente para verificar as informações, mas uma análise inicial sugere que as fotos mostram um reator nuclear muito semelhante ao modelo usado em Yongbyon, na Coréia do Norte.

As revelações levantaram várias questões. Por exemplo: para que serve o reator? Não há sinal das instalações auxiliares necessárias no caso de um reator para geração de energia.

Mas também não há sinais de outros elementos dos programas de fabricação de bombas - uma instalação para separar o plutônio e uma fábrica que iria montar a arma.

Se, como afirmam os americanos, a construção do reator estava próxima da conclusão, de onde o combustível de urânio teria vindo?
E qual a razão de os Estados Unidos terem divulgado essas informações apenas agora? Foi um esforço para isolar ainda mais a Síria ou pressionar ainda mais a Coréia do Norte?
Ruim para dois países
O que se pode destacar é que um suposto envolvimento nuclear entre os governos da Coréia do Norte e da Síria pode ser ruim para os dois países.

Em meio às informações sobre a retomada do conflito entre Israel e Síria, também existem informações de um possível acordo entre os dois países sobre as Colinas do Golã.

Os sinais são complexos e contraditórios, mas a descoberta de um programa nuclear clandestino da Síria, no momento, serve para aumentar ainda mais o isolamento do país. E, sem a participação dos Estados Unidos, qualquer acordo entre Síria e Israel seria ilusório.

Alguns analistas afirmam que a decisão dos americanos de divulgar as fotos do reator sírio pode ser o ponto alto da disputa entre duas correntes dentro do governo Bush.

Neste caso, a vitória foi da corrente a favor de medidas mais drásticas. Na visão desta corrente, os americanos não deveriam aceitar nenhuma negociação com a Síria, nem deveriam fazer as concessões necessárias à Coréia do Norte para manter vivo o acordo para a redução de seu programa nuclear.

Está claro que as vozes mais conservadoras, dentro e fora do governo Bush, vêem falhas graves na proposta de acordo com a Coréia do Norte. Os mais liberais também têm essa visão.

Então, a dúvida é se essas informações secretas tiveram o objetivo de enfurecer o governo norte-coreano para prejudicar as chances de um acordo.

O interessante é que o negociador-chefe dos Estados Unidos para a Coréia do Norte, Christopher Hill, notou que, atualmente, na visão dos Estados Unidos, a cooperação nuclear entre a Coréia do Norte e a Síria não está mais em vigor.

Congressistas e ONU
Além da insatisfação dos congressistas americanos, a demora em divulgar os dados também deixou o chefe da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Mohamed El-Baradei, insatisfeito.

Baradei afirma que o governo americano forneceu as provas a respeito do reator da Síria apenas no dia em que apresentou as fotos aos congressistas.

Em uma declaração divulgada pela AIEA, Baradei afirma que "deplora o fato de que a informação não foi fornecida à agência em um momento mais oportuno". E a AIEA afirmou que vai investigar mais as alegações.

Mas, no local onde o suposto reator em construção foi atacado, um novo prédio está sendo construído. E é mais provável que os sírios não dêem acesso ao local. Com isso, é difícil saber até onde uma investigação da AIEA pode chegar.

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