Análise: Acordos entre China e Taiwan geram desconfiança

Os protestos que marcaram a visita a Taiwan do principal negociador chinês para a ilha, Chen Yunlin, indicam que os taiwaneses ainda estão muito desconfiados de seu maior rival histórico. Chen esteve em Taiwan para assinar acordos bilaterais que melhoram as conexões de transporte entre a ilha e o continente e abrem a possibilidade de negócios bilaterais bilionários.

BBC Brasil |

Os acordos permitem a troca de mercadorias livre de impostos entre os portos e triplicam, para mais de cem, o número semanal de vôos diretos de passageiros, que atenderão a mais de 20 cidades chinesas - em vez das atuais cinco.

Entre os termos do acordo também está um mecanismo que prevê a troca de informações sobre normas de saúde e segurança.

O recente escândalo envolvendo leite contaminado na China afetou Taiwan, grande importador de produtos chineses.

Três crianças taiwanesas foram infectadas pelo leite contaminado com a substância química melamina.

Relações hostis
À primeira vista, a visita de Chen Yunlin se concentrou no restabelecimento de laços econômicos, mas muitas pessoas esperam que parcerias nas áreas de comércio e transporte possam ser o fim de uma das maiores áreas de tensão do mundo.

"No passado, as relações entre os dois países eram muito hostis", diz Kou Chien-wen, professor na Universidade Nacional de Taipei Chengchi. "Essa visita mostra que as relações estão direcionadas à reconciliação."
Ao mesmo tempo, a presença da autoridade chinesa expõe a preocupação de muitos taiwaneses de que a ilha de 23 milhões de habitantes perca sua soberania e autonomia.

O principal partido de oposição, o Partido Progressivo Democrático (DPP), organizou uma manifestação em protesto pela visita.

Na noite de terça-feira, manifestantes tentaram furar os cordões de isolamento para entrar no hotel onde Chen estava jantando com uma autoridade do governo - atualmente controlado pelo partido Kuomintang.

A oposição à passagem do chinês pela ilha e às políticas pró-China do presidente Ma Ying-jeou é grande entre setores da população, principalmente entre aqueles cujos ancestrais migraram para a ilha quando a China ainda era governada por imperadores e têm pouca ligação com o continente.

Protestos
Duas semanas antes da chegada do negociador chinês, uma grande manifestação contra a unificação reuniu 600 mil pessoas em Taipé, de acordo com o DPP.

No início de outubro, o vice de Chen, Zhang Mingqing, foi derrubado por um grupo de ativistas pró-independência durante uma visita privada em Taiwan.

Por conta disso, a segurança para a visita de Chen foi reforçada, com a presença de 7 mil policiais nas ruas.

Ainda assim, alguns manifestantes conseguiram exibir cartazes com mensagens como: "bandido comunista" e "caia fora".

Um grupo pró-independência ainda ofereceu recompensa em dinheiro para quem conseguisse acertá-lo com um ovo.

"A principal razão pela qual ele está aqui é para usar meios econômicos para alcançar o maior objetivo da China: a unificação", disse Lin Ching-shui, um morador aposentado de Taipé que participou da manifestação. "É apenas uma isca para fisgar o peixe."
Muitos jovens, que se vêem como taiwaneses em vez de chineses, também participaram dos protestos.

"Sua vinda para cá não é boa para nós. A China quer apenas que sejamos uma parte dela", disse Hsu Wen-chien, um universitário de 21 anos. "Queremos que o mundo todo saiba que somos um país independente."
Soberania
O presidente Ma prometeu garantir a soberania de Taiwan e insiste que as negociações não abordarão questões políticas.

Ele também prometeu pedir à China que remova seus mais de mil mísseis apontados para a ilha, mas não está claro se a questão será discutida durante a visita de Chen.

Pequim ainda vê Taiwan como parte de seu território e ameaçou retomar a ilha à força se ela declarar formalmente sua independência.

As relações entre a China e Taiwan melhoraram desde que Ma subiu ao poder, mas a forte oposição às negociações indica que ele pode ter dificuldades na busca por políticas que incluem a abertura da ilha para investimento chinês e eventualmente a assinatura de um acordo de paz.

"Estou preocupado que Taiwan seja traída por Ma Ying-jeou", disse o aposentado Lin.

Apesar de preocupações do tipo, os dois lados concordaram em realizar conversas regulares, com a próxima rodada de negociações esperada para o ano que vem em Pequim, focada na cooperação econômica e na proteção de investidores taiwaneses na China.

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