Americanos que vivem no México cruzam a fronteira para estudar

Alunos enfrentam riscos e cansaço em busca de educação de melhor qualidade em escolas dos Estados Unidos

The New York Times |

Durante a semana, por volta das 5h, quando o sol ainda nem nasceu, Martha, uma estudante do ensino médio, começa seu trajeto de três longas horas até a escola.

Ainda com sono, ela destranca o portão protegido pelos dobermans da família e aguarda em frente de um posto de gasolina Pemex pelo ônibus que a levará até a fronteira. Seus companheiros passageiros, homens adultos de braços cruzados, caem sobre ela quando dormem sentados.

O destino final de Marta, o mesmo de dezenas de seus amigos - todos cidadãos americanos que vivem em "TJ", como eles chamam carinhosamente a sua cidade, Tijuana, no México – é uma escola pública a 12 quilômetros de distância em Chula Vista, Califórnia, onde nasceram e onde ainda chamam de terra natal.

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NYT
Estudantes caminham em direção à fronteira entre México e Estados Unidos (23/10/2011)

Estes adolescentes californianos iniciam suas manhãs com guardas alfandegários e ônibus escolares. Martha e seus amigos ficam em pé durante horas junto a 16 mil outras pessoas numa das fronteiras terrestres internacionais mais movimentadas do mundo. Com telefones celulares em uma mão e notebooks na outra, esperam para atravessar a pé, temendo atrasos que poderiam forçá-los a perder uma prova final e sem prestar muita atenção aos vendedores ambulantes que vendem burritos ou aos pais cansados que carregam crianças ainda de pijama.

Em San Ysidro eles entram em um carro vermelho que os leva até outro ônibus que os leva para a escola. Eles correm contra o relógio – o sinal toca às 8h.

"Na maioria das vezes fico muito, muito cansada", disse Martha, cujos pais se mudaram de volta para Tijuana, pois o custo de vida lá é mais barato do que no sul da Califórnia. "Tento fazer o meu melhor, mas, às vezes, simplesmente não consigo."

No debate sobre a imigração, quase todos os lados concordam com uma aplicação de leis mais rigorosas na fronteira. Mas a frustração que passa despercebida é a daqueles que atravessam as fronteiras e que não são imigrantes ilegais, mas sim jovens cidadãos americanos, cujas famílias voltaram para o México mas ainda querem que seus filhos frequentem escolas nos EUA.

Apelidados de "transfronterizos", esses estudantes migram todos os dias entre duas culturas, duas línguas e duas nações, sobrecarregando os recursos dos distritos das escolas públicas e provocando um debate entre educadores e sociólogos sobre se é do interesse dos americanos que eles sejam educados nos Estados Unidos. Embora algumas famílias mexicanas paguem a alta taxa exigida de estudantes que moram fora do distrito escolar, a maioria não paga, e muitos tampouco pagam os impostos que ajudam a manter os serviços públicos americanos.

Estudantes como Martha conseguem estudar normalmente em alguns distritos escolares, enquanto em outros distritos policiais vivem rotinas de busca nas escolas para descobrir quem eles são. Eles vivem sob a constante ansiedade de potencialmente ter de mentir sobre sua residência e com a possibilidade muito real de que aquilo que mais querem - uma educação decente – lhes seja negado. Embora seus números exatos sejam desconhecidos, a sua presença reflete as complexidades da vida diária na fronteira - entre elas as disparidades econômicas e educacionais entre os Estados Unidos e México e as famílias devastadas devido à deportação e o desemprego.

Transfronterizos podem ser encontrados de Calexico, Califórnia, a El Paso, Texas, onde a violência na cidade vizinha, Ciudad Juarez, México, levou à criação de uma pista designada na estrada para a travessia de 800 a 1,4 mil alunos por dia, incluindo cidadãos dos Estados Unidos que frequentam escolas em El Paso.

Em Tijuana, Martha e uma meia dúzia de alunos da escola média deixaram um repórter acompanhá-los em seus traslados diários e falaram a respeito de seus conflitos de identidade e sobre as críticas que recebem de seus colegas americanos. Alunos, pais e alguns professores falaram sob a condição de anonimato para não comprometer os estudantes de suas escolas.

A mãe de Marta, uma costureira, estudou apenas até a nona série. Vários dias por semana, ela se levanta às 2h para pegar um lugar para sua filha na fila. A família de Martha ajuda a pagar a hipoteca de uma casa em Chula Vista, onde outros membros de sua família vivem, e pagam contas de utilidades para poder estabelecer residência.

Outras famílias alugam apartamentos em Tijuana, pegam “emprestado” endereços da casa de amigos ou até mesmo criam endereços de caixa postal. Às vezes, um parente no bairro é nomeado tutor legal da criança.

"É estressante", diz Martha sobre a casa que não é sua verdadeira casa. "Você pode ser descoberto e expulso da escola. Às vezes, me sinto mal por mentir. Mas estou apenas tentando frequentar uma escola, só isso."

De muitas maneiras, eles são simplesmente adolescentes, com seus tênis e fones de ouvido. Na fila da fronteira, o bate-papo sobre ressacas e como seus pais são rigorosos poderia ser o papo de um jovem em qualquer lugar.

A diferença é que aqui, há cães que farejam em busca de drogas, a Alfândega e agentes da Patrulha da Fronteira - além de uma placa que diz: "Bem-vindo aos Estados Unidos."

Luis, um estudante do terceiro colegial que usa aparelho nos dentes, nasceu em Los Angeles e estudou até o segundo colegial na cidade, passando a semana na casa de seu tio e os fins de semana com a família em Tijuana. Com saudades de casa, ele finalmente se mudou para o México.

"Me sentia mal sozinho", disse ele. "É cansativo, mas desta forma posso ver minha família todos os dias."

Agora ele e sua irmã de 16 anos se levantam às 3h e são levados até a fronteira por seu pai, um paisagista que tem um green card. Os adolescentes tomam banho em um estúdio que a família aluga no bairro da escola em Chula Vista, e andam 3,5 quilômetros até a escola. A irmã mais nova de Luis não pode se juntar a eles - ela nasceu no México, assim como a maioria dos amigos do irmão.

"Eles dizem, 'Poxa cara, é muito difícil acordar às 3h", disse Luis, sentado em seu quarto em Tijuana, decorado com pôsteres de Piccadilly Circus, um lugar que ele ainda quer poder visitar. "Por outro lado," ele disse, "eles têm inveja de eu poder atravessar a fronteira e eles não."

Para os educadores, determinar se um estudante atende aos requisitos de residência pode ser uma tarefa complicada já que as regras variam de distrito para distrito e de Estado para Estado. Em San Ysidro, as famílias devem fornecer uma hipoteca ou contrato de aluguel e contas seu nome. Nos últimos dois anos, o distrito enviou "cartas de exclusão" para mais de 20 famílias. Em alguns casos, documentos falsos foram descobertos.

Manuel H. Paul, o superintendente, disse que os educadores prestam atenção aos "sinais", como um telefonema de uma enfermeira da escola que cai em um número que não existe.

"O aluno normalmente diz: 'Nós vivemos em Tijuana", disse Paul. "As crianças na maioria das vezes não mentem."

Em 1982, a Suprema Corte estabeleceu que as escolas não podem perguntar sobre o status de imigração de uma família. Ed Brand, superintendente do Distrito Escolar de Sweetwater, em Chula Vista, diz que um cidadão americano que vive fora do município escolar teria de pagar uma anuidade de US$ 7.162.

"Nós não somos o INS", acrescentou, referindo-se ao antigo Departamento de Imigração e Naturalização. “Será que as pessoas conseguem burlar nossas regras? Imagino que sim."

Perto de Calexico, um oficial à paisana foi despachado para fotografar estudantes cruzando a fronteira, mas a prática foi considerada "um exercício inútil" e descontinuada, disse Richard Fragale, o superintendente das escolas. Ele estima que entre 100 e 200 estudantes cruzam a fronteira diariamente, sendo que a maioria deles não paga a mensalidade. Em uma última instância, existem decisões difíceis a serem tomadas pelo distrito. Recentemente dois pais foram deportados, deixando dois filhos, ambos cidadãos dos Estados Unidos, no limbo.

"O que vamos fazer com esses jovens?" disse ele. "Filosoficamente, como educador, se um jovem chega à sua porta, devemos educá-lo."

Em Ajo, Arizona, a Secretaria de Educação do Estado multou o distrito em US$ 1,2 milhões em maio de 2010, por educar 105 alunos que moravam no México. O distrito, desde então, dificultou os seus requisitos de residência.

“A questão é sermos justos, independentemente do estudante viver no México ou fora de um distrito escolar, mas nos Estados Unidos”, argumenta Steven A. Camarota, diretor de pesquisas do Centro para Estudos de Imigração em Washington, que defende uma limitação à imigração. A possibilidade de que estes indivíduos possam "pagar impostos suficientes para cobrir os custos de seu consumo dos serviços públicos é basicamente zero", disse ele.

Martha e seus amigos veem os colegas que moram no bairro como mimados. Eles não têm de lidar com a zombaria dos trabalhadores na fronteira dizendo que furaram a fila. Ou dizer "me acorda quando chegarmos" para o motorista de táxi que os leva até sua casa em Tijuana depois da aula.

Jesus viaja 32 quilômetros de Tijuana, em uma estrada sinuosa conhecida por ter muitos roubos. Ele pretende estudar gastronomia.

"Estou apenas tentando melhorar meus estudos e me tornar alguém importante na vida", diz ele. "É uma grande responsabilidade ter que me assegurar que irei chegar na escola todos os dias”.Cinco atrasos podem resultar em quatro horas de reposição de aula em um sábado e uma nota 0 em cidadania.

"Você pode acabar com o seu futuro", diz um dos professores de Jesus, que não dá atraso quando ele bate timidamente na porta da sala de aula 10 minutos após o ínicio da primeira aula.

Martha atravessa a fronteira desde que tinha 5 anos. Sua vida tem a sua própria maré, bem como uma ocasional ressaca. Em Tijuana, "às vezes as pessoas pensam que somos superiores", porque ela frequenta uma escola nos Estados Unidos. Mas, como uma mexicana em San Diego, "eles olham para mim com desgosto".

Falar sobre sua vida pode ser algo complicado. "Você não pode confiar na maioria das pessoas", diz Martha.

Um professor em Chula Vista, cujo nome não foi divulgado para proteger os alunos de sua classe, incluindo Martha, disse: "Não consigo extrair tudo o que quero dela. Sua inteligência está escondida atrás de seu cansaço."

No entanto, professores e conselheiros educacionais dizem que apesar dos desafios acadêmicos, os estudantes que se levantam às 4h para estar na escola mostram sinais de que podem se tornar líderes resilientes.

"Eles sabem quem são e o que querem ser", observou o professor. "Eles não vão aceitar trabalhar em um Jack in the Box. Eles vão atrás de seus objetivos ".

Por Patricia Leigh Brown

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