Americana que recebeu transplante facial evolui bem, dizem médicos

Londres, 15 jul (EFE).- A americana Connie Culp já recuperou boa parte das funções do rosto desde que, em dezembro, passou por um transplante facial para reparar os danos causados por um tiro dado pelo próprio marido.

EFE |

Quem assegura a informação são os médicos que a trataram, em artigo publicado hoje na internet pela revista "The Lancet", no qual se argumenta que, apesar dos desafios que ainda existem, este tipo de transplante é uma opção cada vez mais recomendável em casos de desfiguração.

O caso de Culp, de 46 anos e mãe de dois filhos, chegou à imprensa em maio, meses depois de uma equipe de oito cirurgiões liderada por Maria Siemionow ter transplantado para ela o rosto de uma doadora na Clínica de Cleveland, no estado americano de Ohio.

O marido de Connie, que atualmente está preso, lhe deu um tiro no rosto em 2004, destroçando totalmente a parte central da face, incluindo o nariz, e causando graves danos estruturais na boca, nos nervos e na pele.

Embora tenha sobrevivido ao ataque, o rosto da americana ficou completamente desfigurado - ela não podia falar nem beber usando um copo, não tinha olfato e respirava por um orifício na traquéia. Até 2008, se submeteu a 23 cirurgias reparadoras que, no entanto, não conseguiram reconstruir sua face.

Como sua situação não melhorava e sofria frequentes humilhações, os médicos propuseram um transplante de rosto quase total. Culp aceitou passar pelo procedimento apesar dos perigos envolvidos, como ter de tomar remédios imunossupressores (que reduzem as reações imunológicas) pelo resto da vida para neutralizar o risco de rejeição.

A doadora foi uma mulher que morreu por morte cerebral, da mesma idade, raça e constituição física que a paciente.

Em uma pioneira operação de 22 horas realizada em dezembro de 2008, os cirurgiões do hospital de Cleveland substituíram 80% do rosto de Connie. Eles implantaram nariz, lábio superior, pálpebras inferiores e a mandíbula superior incluindo dentes incisivos, paladar e várias glândulas, explicam os especialistas em "The Lancet".

Após unir a estrutura óssea, os médicos fizeram as conexões das veias e das artérias. Menos de três horas depois, o tecido doado começou a assumir um tom róseo, um indício de que a operação estava dando certo. Em seguida, conectaram os nervos faciais.

Depois da intervenção, Connie recebeu os medicamentos imunossupressores. Por enquanto, não teve infecções oportunistas, contam os médicos, mas houve um pequeno episódio de rejeição do tecido no 47º dia, logo resolvido.

A fisioterapia e a fonoaudiologia começaram 48 horas depois da cirurgia. As sessões ocorriam uma vez ao dia durante as primeiras seis semanas e depois três vezes por semana.

Além de receber apoio psicológico com a mesma periodicidade, Connie faz exames regulares para comprovar a evolução de seu olfato e de seu paladar, além de suas capacidades de aspirar e gesticular, entre outras.

Seis meses depois do transplante, a americana recuperou as sensações no rosto, enquanto suas funções motoras, como a capacidade de sorrir e de ter expressões, melhoram de forma lenta e progressiva, como explica o artigo publicado em "The Lancet".

Connie já consegue cheirar, comer alimentos sólidos, beber usando um copo. Além disso, é possível entendê-la quando fala, embora, por exemplo, ainda tenha dificuldades de movimentar o lábio superior.

A dor que sofria antes do transplante diminuiu drasticamente e recuperou a auto-estima: três semanas depois da operação, ela deu nota cinco de um máximo de dez para sua aparência. Aos cinco meses, a classificação subiu para oito.

Os médicos afirmam que seu aspecto melhorará cada vez mais à medida que a pele restante seja eliminada com outras operações no futuro.

Apesar do êxito da intervenção, os especialistas reconhecem que ainda existem desafios médicos e éticos para este tipo de transplante, que vão desde a seleção da doadora até "a consideração das responsabilidades financeiras, morais e profissionais do paciente".

Apesar de tudo, acrescentam os autores do artigo, em casos severos de desfiguração, "deve ser respeitado o direito ético do paciente de decidir, após ser informado dos riscos e benefícios do procedimento e da necessidade de tomar imunossupressores pelo resto da vida". EFE jm/bba

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