América Latina vê reaproximação ideológica com os EUA de Obama

Por Stuart Grudgings RIO (Reuters) - A histórica eleição de Barack Obama como presidente dos EUA provocou na quarta-feira o otimismo na América Latina quanto a uma reaproximação ideológica após anos de negligência por parte de Washington.

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Mas a esperança de uma mudança drástica nas relações é pouco realista, pois as prioridades de Obama serão a crise econômica e as guerras no Iraque e no Afeganistão.

Ele enfrenta complexos desafios políticos na América Latina, que na última década deixou de ser mero "quintal" dos EUA e migrou politicamente para a esquerda.

Mas a eleição de um presidente negro é um símbolo potente numa região que tem seu próprio histórico de opressão racial. O fato de que ele seja considerado um esquerdista no espectro político norte-americano também desperta otimismo de uma melhoria nas relações com Cuba, Venezuela e Bolívia.

"Obama é um homem que vem de setores discriminados e escravizados", disse o presidente da Bolívia, Evo Morales, primeiro indígena a governar o seu país. Em setembro, ele expulsou o embaixador dos EUA em La Paz, acusando-o de tramar com a oposição.

"Meu maior desejo é que o sr. Obama possa encerrar o embargo a Cuba, retirar tropas de alguns países e também certamente que as relações entre a Bolívia e os Estados Unidos melhorem", disse Morales.

O ex-presidente cubano Fidel Castro, eterno inimigo ideológico dos EUA, disse que Obama é mais "inteligente" e "culto" do que seu antecessor, George W. Bush.

O venezuelano Hugo Chávez, que já chamou Bush de "diabo" e ampliou relações com governos rivais de Washington, como Irã e Rússia, disse que a vitória de Obama representa uma chance de melhoria nas relações da superpotência com um dos seus principais fornecedores de petróleo.

Jamaicanos comemoraram a vitória de Obama e alguns atiraram para o ar quando sua vitória foi anunciada por volta de meia noite. "Essa é uma verdadeira mudança nos EUA que eu jamais esperava ver", disse Esmine Brown, 72, moradora de Kingston.

A presidente do Chile, Michelle Bachelet, afirmou que a vitória democrata após oito anos de governos republicanos devem representar uma melhora nas prioridades dos EUA.

"Sei que suas principais preocupações são a justiça social e a igualdade de oportunidades, e o que ele resumiu em seus slogans de esperança e mudança são os mesmos princípios que nos inspiram no Chile", disse ela em Santiago.

Conforme a América Latina se torna economicamente mais independente e autoconfiante nos últimos anos, mesmo líderes esquerdistas moderados, em países como Brasil e Chile, se distanciam dos EUA e buscam relações mais estreitas com China e Europa.

Em discurso na Fundação Cubano-Americana de Miami, em maio, Obama apresentou uma visão sobre a região que se baseava no governo de Franklin Roosevelt, na década de 1930, quando Washington substituiu a política de intervenção militar pela da "boa vizinhança".

Ele prometeu estimular a democracia "de baixo para cima", o que implicaria, por exemplo, em relaxar restrições nas viagens para e de Cuba. Ele defendeu uma aproximação mais diplomática que poderia levá-lo a sentar-se com líderes como Chávez e Raúl Castro.

"NÃO É POMBA"

Mas Obama usou termos duros contra Chávez e promete manter o embargo a Cuba. Também manifestou apoio à ação militar da aliada Colômbia contra a guerrilha das Farc, em março, quando tropas colombianas invadiram território equatoriano, ação condenada por muitos governos latino-americanos.

Ele promete ampliar a ajuda ao México e à América Central na sua luta contra as drogas.

"Uma coisa que aprendemos a respeito de Obama é que ele não é uma pomba na política externa", disse Michael Shifter, da entidade Diálogo Interamericano, de Washington. "Com Chávez, sua preocupação em particular será com as alianças com Irã e Rússia."

No Brasil, onde existe a maior comunidade negra fora da África e onde Obama é muito popular - a ponto de ter inspirado o apelido de diversos candidatos a vereador nas eleições de outubro -, o governo vê com desconfiança a suposta postura do novo presidente contra o livre comércio.

Obama é favorável a manter a taxação sobre o etanol brasileiro extraído da cana, que é mais competitivo que o biocombustível à base de milho feito nos EUA. Ele também critica acordos comerciais com outros países latino-americanos, como a Colômbia.

"Essas diferenças não serão instantaneamente resolvidas com uma vitória de Obama", disse Roberto Mangabeira Unger, ministro de Assuntos Estratégicos do governo Lula, que foi professor de Obama na Universidade Harvard.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, cuja trajetória às vezes é comparada à de Obama, telefonou para o novo presidente cumprimentando-o pela vitória, defendendo mais "relações ativas" com a região e pressionando pelo fim do embargo a Cuba.

(Reportagem adicional de Ray Colitt em Brasília; Simon Gardner em Santiago; Horace Helps em Kingston; Carlos Quiroga em La Paz; Patrick Markey em Bogotá; e Saul Hudson em Caracas)

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