BOGOTÁ (Reuters) - A Comissão Latino-Americana sobre Drogas e Democracia pediu na quinta-feira aos Estados Unidos e à Europa que intensifiquem seus esforços contra o consumo de drogas ilícitas, como parte de uma estratégia global que envolve também a repressão à produção e ao tráfico. A comissão, liderada por ex-presidentes como Fernando Henrique Cardoso, César Gaviria (Colômbia) e Ernesto Zedillo (México), busca levar à ONU uma proposta unificada de reforma da política global antidrogas.

'Tem-se a sensação de que o resto do mundo olha para a América do Sul como se fosse a culpada, porque a droga se produz em alguns países daqui, e não se dão conta de que eles consomem a droga', afirmou Fernando Henrique.

'Haverá sempre quem produza quando houver consumo. É preciso combater também o consumo e os paraísos fiscais', acrescentou o ex-presidente, dizendo-se preocupado com o poder de penetração do narcotráfico nos governos da região, gerando corrupção e ameaçando a democracia.

'As favelas no Brasil passaram de ser o reduto da pobreza e da miséria para se transformar em bunkers dos narcotraficantes, que utilizam sua gente para guardar e distribuir os pacotes de droga, utilizando as melhores armas', disse FHC, citando também a expansão do narcotráfico no México.

Ele defendeu que, paralelamente ao combate policial-militar contra os cartéis de traficantes, a questão do consumo seja tratada como assunto de saúde pública.

DIREITO DE QUESTIONAR

Já César Gaviria defendeu que a Colômbia, destinatária de uma bilionária ajuda antidrogas dos EUA, tenha o direito de questionar os resultados e de propor outras estratégias.

'A Colômbia tem o direito é de perguntar se o enorme esforço que está fazendo está produzindo os resultados que a comunidade internacional supostamente está esperando, e se [os demais países] estão fazendo o que lhes cabe para avaliar suas políticas e ver se produzem os resultados esperados', afirmou Gaviria, que também foi secretário-geral da Organização dos Estados Americanos.

Ele alertou que não se deve confundir a questão da despenalização do uso com uma trégua na luta contra o narcotráfico.

'Quero crer que quando falamos de despenalização estamos nos referindo ao consumo pessoal, e não à luta contra o narcotráfico', disse.

O vice-presidente da Nicarágua, Sergio Ramírez, sugeriu que os países desenvolvidos, maiores consumidores de droga, paguem um imposto a países pobres que combatem a produção.

Vários países da América Latina são produtores importantes de drogas, como Colômbia, Peru e Bolívia, enquanto outros, como Brasil, México e Venezuela, têm importância como rota do tráfico. Além disso todos, em maior ou menor proporção, são afetados pelo consumo de drogas.

(Reportagem de Luis Jaime Acosta)

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