América Latina é de direita, e não de esquerda, diz Alain Touraine

A América Latina caminha para a direita, porque nenhum dos países da região fez reformas para reduzir a desigualdade, apesar de seus governos se intitularem de esquerda, disse, em entrevista à AFP em Lima, o sociólogo francês Alain Touraine, que se declara anti-Chávez.

AFP |

"A idéia que se expressa, em todas as partes, de que a América Latina vai para a esquerda é falsa: o continente inteiro está para a direita, porque não conheço nenhum país que tenha conseguido diminuir de maneira limitada o grau de desigualdade", afirmou Touraine, um especialista na região.

"O único país que escapa um pouco dessa tendência, é o Brasil, desde a época de Fernando Henrique Cardoso e, agora, com Luiz Inácio Lula da Silva", completou.

Touraine se declarou "anti-Chávez e pró-Morales" ao criticar os esforços nulos do governante venezuelano para reduzir a pobreza em seu país e por sua pregação continental.

"Acho que a Bolívia está entre dois caminhos possíveis e o único que é realmente frutífero é o caminho continental, o caminho seguido por Lula e não o de Chávez", opinou, acrescentando que "Chávez não é Fidel Castro, é tão-somente um poço de petróleo".

"A desigualdade se mantém como o fator central desse continente. É impossível se modernizar com uma desigualdade tão grande, salvo por meio de mecanismos autoritários e repressivos", criticou Touraine.

"Embora haja sempre uma possibilidade: sublevar os pobres", lembrou.

"O Chile é um país com tanta desigualdade quanto há dez anos", comentou Touraine, considerado um dos mais importantes sociólogos contemporâneos.

"Se, na educação e na saúde, mantém-se, ou aumenta-se a desigualdade, o que significa falar de esquerda? É um problema real. Como se pode criar redistribuição de renda?", questionou.

"Pela primeira vez, a América Latina se encontra frente a seus problemas internos. Não se pode culpar os Estados Unidos, ou a União Soviética, pelos problemas da região, como acontecia na era da Guerra Fria", acrescentou.

"Hoje, os países da América Latina, assim como a China, não estão diante de um sistema dominante, mas dentro do sistema. O comportamento de ruptura desapareceu, e a guerrilha perdeu sua importância", explicou Touraine.

Segundo ele, um dos traços atuais na América Latina "é a ausência de mobilizações populares pela crise ideológica. Desapareceu a mistura do político e do social, que era o fundamental do continente".

"O mundo funciona hoje com base em variáveis dominantes de situações externas: o aumento real dos preços do petróleo e dos metais". Venezuela e Chile, por exemplo, beneficiam-se disso, em função do petróleo e do cobre, respectivamente, lembrou.

Touraine ressaltou a gradual importância que a China está ganhando na região por seu maior peso como sócio comercial, em contraste com o retrocesso dos EUA.

"Os Estados Unidos são completamente indiferentea ao que acontece na América Latina, estão totalmente metidos no Oriente Médio e no Iraque, e o tema dos acordos comerciais com a região não é, hoje, importante para eles", destacou.

ljc-jlv/tt

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