América do Sul rejeita política de imigração da UE e pede reflexão

Tucumán (Argentina), 1 jul (EFE).- A América do Sul aproveitou a Cúpula do Mercosul que terminou hoje na cidade argentina de Tucumán para reiterar sua rejeição ao endurecimento da política européia de imigração e para pedir aos dirigentes do bloco comunitário reflitam sobre o assunto.

EFE |

As declarações de condenação à nova diretiva de retorno de imigrantes ilegais, aprovada pela União Européia (UE) em meados de junho, tiveram destaque em boa parte do debate presidencial de hoje.

Os membros do Mercosul (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, com a Venezuela em processo de adesão) e os associados (Bolívia, Chile, Equador, Peru e Colômbia) assinaram uma declaração conjunta na qual manifestam sua "rejeição" formal à diretiva.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva que assumiu hoje a Presidência rotativa do Mercosul, chegou a lamentar o que chamou de atitudes "racistas" da velha Europa.

Entre outras medidas, a diretiva européia - que entrará em vigor em 2010 - estabelece que os imigrantes em condição irregular, incluindo os menores de idade, podem ser detidos até por seis meses, prorrogáveis por mais 12, enquanto se tramita sua expulsão da Europa, onde não poderão retornar durante os cinco anos seguintes.

Os presidentes dos países-membros do Mercosul "rejeitam" qualquer tentativa de criminalização da imigração irregular e a adoção de políticas migratórias restritivas, em particular em relação aos setores mais vulneráveis, como o das mulheres e crianças, assinala a declaração da reunião.

Além disso, defendem a necessidade de lutar contra o racismo, a discriminação, a xenofobia e outras formas de intolerância.

O termo "rejeição" foi incluído na declaração do Mercosul com a proposta do presidente da Bolívia, Evo Morales, em substituição da versão inicial, que expressava a "profunda preocupação" dos líderes pela nova lei européia.

Apesar da mudança de última hora, o documento não retrata a dureza das críticas escutadas no plenário da 35ª Cúpula do Mercosul feitas por praticamente todos os líderes que estiveram na reunião.

Morales, um dos maiores críticos da decisão européia, pediu a seus colegas uma rejeição "unânime" à nova lei comunitária.

"Não posso entender como colocam esta diretiva de retorno na Europa. Antes nos diziam que os índios não têm alma, me pergunto onde está a alma européia", comentou Morales.

"A América recebeu muita gente. Alguns se apropriaram de milhares de hectares de terras, saquearam nossos recursos naturais, explodiram nossos irmãos e agora aprovam a diretiva de retorno", disse o líder boliviano.

Quase tão duro foi o chefe de Estado venezuelano, Hugo Chávez, que pediu aos presidentes uma resposta contundente contra o que chamou de "barbárie" da UE.

"Seria preciso conciliar possíveis respostas e chamar à reflexão os Governos da Europa", disse o líder venezuelano, que lembrou que seu país já antecipou uma possível reação, como a aplicação de uma "lei de retorno" dos investimentos europeus na Venezuela.

O endurecimento da política migratória européia é especialmente sensível para a América Latina porque grande parte dos imigrantes irregulares que residem na UE - cerca de oito milhões segundo cálculos oficiais - saem de países da região e por laços históricos e culturais que unem ambos os continentes.

Sobre esses laços, fez referência o presidente uruguaio Tabaré Vázquez, neto de emigrantes espanhóis, que lamentou os "surtos xenofóbicos" e a discriminação sofrida por latino-americanos na Europa.

"Ninguém imigra por prazer, mas por necessidade", apontou Vázquez. Para ele, a América Latina "é um enorme laboratório de pesquisa genética pelas misturas de raças e, sem dúvida, a mestiçagem será o futuro da humanidade". EFE mar/rr

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