Ameaça do Taleban paira sobre as eleições afegãs

CABUL - A ameaça de mais ataques de rebeldes talebans paira mais do que nunca sobre as eleições presidenciais e provinciais da próxima quinta-feira no Afeganistão, causando temores de um alto índice de abstenção dos eleitores e de um processo eleitoral pouco confiável.

Redação com agências internacionais |

Oito anos após o início da intervenção internacional que os derrubou do poder, e apesar da presença de 100 mil soldados estrangeiros, os talebans ganham terreno no país, admitiu na última semana o comandante das forças norte-americanas no Afeganistão, o general Stanley McChrystal.

Os episódios de violência e a quebra, nos últimos meses, de recordes absolutos de mortes desde 2001, alimentam sérias dúvidas em relação às votações em parte dos sete mil centros eleitorais, principalmente nos bastiões rebeldes do sul e do leste.


Segurança reforçada visa evitar ataques no Afeganistão / AFP

Neste sábado, os talebans interromperam a campanha eleitoral afegã com um atentado suicida que deixou ao menos sete mortos em frente ao quartel-general da Força Internacional de Assistência à Segurança (Isaf) em Cabul, cometido horas após um ataque com sete projéteis a uma base militar espanhola de Herat, no oeste do país.

Para especialistas, os talebans têm, mais do que em 2004 e 2005, a capacidade de tumultuar estas eleições, como juraram fazer.

"Apenas alguns terroristas suicidas são suficientes em uma grande cidade no dia da votação para que as pessoas fiquem em casa", considera o analista afegão Harun Mir.

Apesar dos 300 mil policiais e soldados afegãos e internacionais que serão mobilizados para manter a segurança nas eleições, se os rebeldes decidirem agir, "será quase impossível impedi-los", porque "um terrorista suicida sempre consegue se infiltrar", alerta Mir.

Os talebans conclamaram os afegãos a boicotar estas eleições, que consideram uma mentira orquestrada pelos Estados Unidos, e a pegar em armas contra os "invasores". "Não atacaremos civis nos centros de votação. Mas impediremos as pessoas de irem até lá", declarou um dos porta-vozes do grupo terrorista, Zabihullah Mujahed.

A ameaça de ataques e a intimidação de eleitores - mensagens com ameaças de represálias são difundidas à noite em algumas grandes cidades - colocam em risco a credibilidade das eleições, segundo os observadores.

Como a segurança é a condição essencial para eleições livres e justas, a situação atual "poderá afetar a liberdade de movimento de alguns eleitores", declarou Nader Nadery, presidente da ONG Fundação para Eleições Livres e Justas no Afeganistão.


Painel com propaganda dos candidatos em Cabul / Reuters

Temor afasta eleitores

A mensagem dos talebans dá certo: vários afegãos dizem temer a violência.

"Não creio que as eleições se desenvolverão bem, não há segurança (...). As pessoas se inscreveram em listas eleitorais, mas estão com muito medo devido às declarações dos talebans", afirma Hamidullah, morador de Kandahar (sul), capital do regime Taleban (1996-2001).

Frente à escalada da violência, muitos países ocidentais presentes no Afeganistão pediram a abertura de negociações com os insurgentes "moderados", uma ideia que o presidente Hamid Karzai defende há anos.

Este, considerado favorito nas eleições presidenciais, prometeu, caso seja reeleito, organizar uma grande reunião com os rebeldes, sob os auspícios do rei Abdullah da Arábia Saudita, com o objetivo de iniciar negociações.


Hamid Karzai é o favorito à reeleição / AP

Mas o Taleban, principal motor da insurreição, rejeitou em diversas oportunidades as propostas de Karzai, condicionando-as à retirada das tropas estrangeiras.

No momento em que aumenta a violência, o porta-voz do Ministério da Defesa, general Mohammad Zahir Azimi, assegura que "a ameaça não é tão grande" e que "se os talebans se moverem, serão seguidos".

Mas para o cidadão afegão, como Mohammad Akram, engenheiro eletrônico de Cabul, "a ameaça ainda está presente", com eleições ou não.

Ele votará no dia 20 de agosto, mas se pergunta: "Quem pode garantir que não vou morrer em um ataque dos talebans antes ou depois das eleições?"

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